Narciso Também Mora nas Empresas
“É que Narciso acha feio o que não é espelho.” O verso de Caetano Veloso talvez diga mais sobre o mundo corporativo do que parece. Empresas também constroem espelhos: seus modelos de negócio, suas competências históricas, seus indicadores, suas referências de mercado, seus executivos mais admirados e, principalmente, as convicções que foram sendo reforçadas ao longo dos anos. O problema começa quando tudo aquilo que não se parece com esse reflexo passa a ser considerado estranho, inferior ou simplesmente errado.
É assim que muitas transformações são inicialmente desprezadas. Surge uma empresa com um modelo diferente e alguém diz que aquilo nunca dará dinheiro. Aparece uma nova tecnologia e a reação é afirmar que o cliente não está preparado. Um concorrente muda a lógica do setor e rapidamente surgem explicações sobre por que aquela estratégia não funcionaria “no nosso mercado”. Às vezes, essas análises estão corretas. Mas, em outras, estamos apenas repetindo o comportamento de Narciso: achando feio aquilo que não é espelho.
Talvez um dos maiores perigos de uma empresa bem-sucedida seja estar certa por tempo demais. As convicções mais difíceis de abandonar não são aquelas que nasceram de um erro, mas justamente aquelas que foram construídas sobre sucessos reais. Uma determinada estratégia funcionou, uma competência criou vantagem, um produto dominou o mercado, uma maneira de operar produziu excelentes resultados. Naturalmente, tudo isso passa a fazer parte da identidade da organização. Só que existe uma enorme diferença entre aprender com o passado e acreditar que o passado continuará definindo o futuro.
Por isso, empresas precisam aprender a se confrontar. Não apenas confrontar concorrentes, mercados ou novas tecnologias, mas confrontar a si mesmas. Questionar aquilo que parece óbvio. Procurar evidências contra suas próprias teses. Ouvir quem discorda do consenso. Perguntar quais competências que hoje representam uma vantagem poderiam, em outro contexto, transformar-se em limitações. Uma organização realmente inteligente não é aquela que acumulou mais certezas, mas aquela que desenvolveu a capacidade de revisar suas certezas antes que o mercado faça isso por ela.
Esse exercício é difícil porque o diferente não ameaça apenas uma estratégia. Muitas vezes ameaça a própria identidade. Se uma startup estiver certa, talvez parte da experiência acumulada pelo incumbente esteja errada. Se uma nova geração realmente quiser consumir de outra maneira, talvez décadas de conhecimento sobre o consumidor precisem ser revistas. Se uma tecnologia mudar profundamente uma cadeia de valor, talvez algumas das competências mais valorizadas de uma empresa deixem de ser tão relevantes. E é justamente nesse momento que arrogância e medo podem se confundir com análise estratégica.
Há ainda um outro lado dessa história. Da mesma forma que Narciso pode nos fazer rejeitar tudo aquilo que não se parece conosco, a insegurança pode produzir o movimento oposto: começar a desejar excessivamente o reflexo dos outros. Empresas observam concorrentes crescendo, startups recebendo atenção, modelos ganhando popularidade e passam a copiar estratégias que talvez nem façam sentido para elas. Surge então uma espécie de inveja corporativa: querer o crescimento do outro, o produto do outro, a cultura do outro, a narrativa do outro.
Mas aprender com alguém não significa querer ser alguém. Nem toda empresa precisa seguir o mesmo caminho do líder do setor. Nem todo negócio precisa perseguir a tendência mais popular. Nem toda inovação precisa ser copiada. Existe uma enorme diferença entre reconhecer que alguém encontrou uma boa resposta e concluir que aquela resposta também precisa ser a sua. Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade estratégica seja conseguir olhar para uma empresa que está vencendo e dizer: “isso funciona para eles, mas talvez nosso caminho seja outro”.
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Encontrar esse caminho próprio exige mais coragem do que copiar. Copiar traz uma sensação imediata de segurança porque alguém já validou a direção. Construir uma trajetória diferente significa aceitar incerteza, experimentar, errar e assumir que nem sempre haverá uma referência pronta para seguir. Mas é justamente aí que nascem algumas das maiores vantagens competitivas: quando uma empresa consegue aprender com o mundo sem perder a capacidade de pensar por si mesma.
Talvez, portanto, as empresas precisem trocar parte de seus espelhos por janelas. O espelho mostra aquilo que já conhecemos. A janela revela aquilo que está acontecendo lá fora. Um reforça nossa identidade; a outra desafia nossa percepção. Organizações saudáveis precisam dos dois. Precisam saber quem são, mas também precisam ter humildade suficiente para perceber quando o mundo deixou de se parecer com elas.
O futuro raramente chega com a aparência do presente. E talvez o verdadeiro desafio estratégico esteja exatamente aí: ter humildade para reconhecer valor no diferente, coragem para confrontar as próprias convicções e segurança suficiente para não sentir inveja nem medo de quem escolheu outro caminho. Porque, no fim, maturidade não é achar bonito apenas aquilo que é espelho. É conseguir olhar para fora sem deixar de descobrir quem você realmente pode ser.



