Mythos Saiu da Jaula, 1 Trilhão na IA, Perplexity Entra pro IPO e Google Derruba Preço
Bom dia! Hoje é 10 de junho. Neste mesmo dia, em 1977, a Apple começava a entregar o Apple II, o computador pessoal que transformou uma invenção de garagem em produto de consumo de massa e inaugurou, na prática, a era da computação acessível.
Quarenta e nove anos depois, a lógica inaugurada por Steve Jobs e Steve Wozniak, a de que tecnologia só se torna revolucionária quando deixa o laboratório e chega às mãos do público, continua a ser o fio condutor de tudo que importa nesta indústria. Do modelo de inteligência artificial mais poderoso do mundo que finalmente ganha acesso público, passando pelos trilhões chineses apostados na infraestrutura que sustentará essa corrida, até a guerra de preços que ameaça comoditizar o próprio acesso à inteligência, a pergunta de 1977 permanece a mesma: quem controla a plataforma que o usuário toca com as mãos controla o futuro.
O Mythos Saiu da Jaula
A Anthropic anunciou nesta terça-feira o lançamento do Claude Fable 5, o primeiro modelo da classe Mythos disponibilizado ao público geral. Para quem acompanha esta newsletter, o nome Mythos carrega um peso específico, afinal, ele foi o modelo que, em abril, a própria Anthropic reconheceu ser poderoso demais para ser liberado sem restrições, após testes internos revelarem que ele havia escapado de seu ambiente de sandbox, construindo autonomamente um exploit de múltiplas etapas para acessar a internet sem instrução humana. Naquela ocasião, como reportamos, um pesquisador da empresa descobriu a fuga ao receber um e-mail inesperado do modelo enquanto almoçava em um parque. Dois meses depois, a empresa julga ter encontrado o equilíbrio necessário entre capacidade e controle para colocá-lo nas mãos do público, ainda que com salvaguardas deliberadas.
O Fable 5 chega como o modelo mais avançado já oferecido a consumidores, com desempenho de ponta em engenharia de software, análise de dados, pesquisa científica e raciocínio complexo. Contudo, a decisão mais reveladora não é o que ele faz, mas o que a Anthropic escolheu impedir que ele faça: quando solicitações tocam em cibersegurança, biologia, química ou técnicas de extração de conhecimento de modelos de IA, o sistema redireciona automaticamente a conversa para o Claude Opus 4.8, uma versão deliberadamente menos capaz. A empresa afirma que mais de 95% das sessões não serão afetadas, mas reconhece que pedidos legítimos podem ser bloqueados por excesso de cautela. Trata-se de uma arquitetura de segurança inédita na indústria, onde ao em vez de um simples “não posso ajudar com isso”, o modelo degrada silenciosamente sua própria inteligência quando percebe risco. É uma decisão que transforma o próprio poder do sistema em variável regulável, não fixa.
Em paralelo, a Anthropic lançou o Claude Mythos 5, a versão completa com salvaguardas parcialmente removidas, restrita inicialmente a parceiros de defesa cibernética e proteção de infraestruturas críticas por meio do Project Glasswing, em colaboração com o governo americano. Segundo a empresa, o Mythos 5 possui as capacidades de cibersegurança mais avançadas entre todos os modelos de IA existentes, sendo capaz de identificar e explorar falhas de software com velocidade e precisão inéditas, além de acelerar etapas do desenvolvimento de medicamentos e conduzir pesquisas genômicas de forma amplamente autônoma por mais de uma semana.
O lançamento acontece no exato momento em que a Anthropic protocolou seu pedido confidencial de IPO, juntamente com a OpenAI e a SpaceX. Deste modo, ao liberar o Fable 5 ao público, a Anthropic materializa para futuros acionistas aquilo que antes era apenas promessa: um ativo que nenhum concorrente pode replicar, calibrado com um nível de controle que nenhum regulador pode ignorar. É, simultaneamente, uma demonstração de força tecnológica e de responsabilidade, exatamente a narrativa que um IPO de sucesso exige.
Mas a questão mais profunda que o Fable 5 levanta transcende a própria Anthropic. A empresa alertou recentemente que os sistemas de IA estão avançando tão rapidamente que poderão, em breve, alcançar o autoaperfeiçoamento recursivo, ou seja, a capacidade de se aprimorarem autonomamente sem intervenção humana. Quando a empresa que constrói a tecnologia mais avançada pede publicamente aos concorrentes que criem mecanismos coordenados para frear o desenvolvimento, e mesmo assim decide liberar uma versão ao público, o recado é claro: a janela entre controle possível e controle impossível está se fechando, e quem não se posicionar agora ficará de fora da mesa onde essas regras serão escritas.
China Aposta R$ 1,5 Trilhão na Infraestrutura da IA
Pequim prepara um plano para investir 2 trilhões de yuans, cerca de R$ 1,53 trilhão, na expansão de data centers pelo país nos próximos cinco anos, segundo a Bloomberg. O objetivo é ampliar a infraestrutura nacional para tecnologias que o governo chinês considera estratégicas: inteligência artificial, computação quântica e robôs humanoides. Sob essa visão, os data centers, ou seja, os centros de processamento que concentram servidores e sistemas de armazenamento, são a base física sem a qual nenhum modelo de IA opera em larga escala, e a China decidiu que essa base será construída com componentes predominantemente chineses, com pelo menos 80% dos equipamentos, incluindo chips de IA, deverão vir de fornecedores locais, uma exigência que beneficia diretamente a Huawei e reduz, por design, o espaço de empresas como a Nvidia.
O plano não surge no vácuo. Como todos temos acompanhado, a China vem respondendo às sanções americanas não com recuo, mas com uma avalanche de capital direcionada à construção de um ecossistema paralelo de IA. O fundo estatal de chips, o Big Fund, por exemplo, negocia a liderança da primeira rodada de financiamento externo da DeepSeek, mirando uma avaliação de US$ 45 bilhões para a empresa. A Moonshot AI, por sua vezm captou US$ 2 bilhões em uma semana. E a mesma DeepSeek, que projeta entregar ao mercado custos ainda menores quando seus clusters equipados com chips Ascend 950 da Huawei entrarem em operação no segundo semestre, como já demonstrado com o seu modelo V4 a possibilidade de entregar desempenho competitivo gastando uma fração do que rivais americanos consomem. O que esse novo plano de data centers faz, ao fim, é fornecer o alicerce físico para que toda essa engrenagem funcione em escala nacional, integrando operadoras como China Mobile e China Telecom na administração da infraestrutura sob o programa “Seis Redes”.
O contraste com o modelo ocidental é revelador. Nos Estados Unidos, big techs como Microsoft, Meta, Google e Amazon devem investir, juntas, US$ 725 bilhões em infraestrutura de IA neste ano, mas a lógica que sustenta esse investimento é fundamentalmente privada e descentralizada. A China, por outro lado, opera sob um planejamento estatal de longo prazo que integra fundos soberanos, metas quinquenais e nacionalização da cadeia de suprimentos em um único movimento coordenado. É o 15º plano quinquenal, aprovado em março, que consagra a IA como prioridade nacional e orienta os fluxos de capital. Assim, o que está se formando não é apenas uma competição por modelos mais inteligentes, mas o surgimento de dois ecossistemas distintos de IA, cada um com seus chips, seus data centers, suas cadeias de suprimento e suas esferas de influência, algo que faz a pergunta formulada pelo Diretor de Operações da ASML em conversa recente continua a ecoar: a China faz um trabalho notável no topo da pilha tecnológica, como no caso dos robôs humanoides, mas carece de elementos fundamentais na base, que neste caso, seriam os data centers.
A questão é por quanto tempo essa limitação persistirá, algo que o volume de trilhões que está sendo despejado em Pequim sugere ser “menos do que o Ocidente gostaria de acreditar”.
Perplexity Mira IPO em 2028
A Perplexity, empresa de busca movida por inteligência artificial fundada por Aravind Srinivas, anunciou que planeja abrir capital em 2028, independentemente do desempenho dos mega-IPOs que estão prestes a testar o apetite do mercado. A OpenAI protocolou seu pedido confidencial de abertura de capital na segunda-feira, após a Anthropic ter feito o mesmo na semana passada, e a SpaceX de Elon Musk prepara sua estreia na bolsa para esta sexta-feira. São três das empresas mais valiosas e mais observadas do planeta testando simultaneamente a disposição dos investidores, em um nível de escrutínio que o mercado de tecnologia nunca experimentou. Srinivas reconheceu abertamente o risco interligado no caso em que se os mega-IPOs fracassarem, haverá consequências em todo o setor de IA. Mesmo assim, segue confiante de que Anthropic e OpenAI justificam suas avaliações.
O que torna a posição da Perplexity particularmente interessante é o que ela revela sobre um modelo de negócio diferente na corrida pela IA. Diferente de OpenAI e Anthropic, que queimam bilhões para treinar modelos de fronteira, a Perplexity opera como uma camada de inteligência sobre modelos alheios, integrando diferentes LLMs em uma infraestrutura de pesquisa unificada. Sua receita anual recorrente ultrapassou os US$ 450 milhões em março de 2026, com um crescimento de 50% em apenas trinta dias, impulsionado pelo lançamento da Perplexity Computer, sua plataforma de agente autônomo. A meta de alcançar US$ 656 milhões em receita até o fim do ano, partindo de US$ 200 milhões no encerramento de 2025, sugere uma trajetória alternativa que, até então, valida uma tese de que nem toda empresa de IA precisa efetivamente construir o modelo mais poderoso para capturar valor no mercado, afinal, a empresa não construiu nada do zero.
A postura de Srinivas diante dos custos da indústria reforça essa leitura. Ao classificar como “gastos impensados” o padrão de investimentos dos últimos meses, e ao afirmar que utilizaria um modelo open source capaz de realizar 90% do trabalho caso custasse dez a vinte vezes menos que o de ponta, ele desenha uma filosofia que questiona diretamente a premissa sobre a qual OpenAI e Anthropic construíram seus valuations bilionários. Se a onda de IPOs de 2026 confirmar que o mercado precifica capacidade bruta de treinamento acima de tudo, a Perplexity poderá se beneficiar como uma alternativa mais enxuta e lucrativa. Se, por outro lado, o mercado punir a queima de caixa e premiar eficiência, empresas como a Perplexity estarão à frente. Em qualquer cenário, a janela de 2028 que Srinivas mantém inalterada funciona como um hedge inteligente: tempo suficiente para observar os erros alheios sem perder a relevância.
Google Dispara o Primeiro Tiro na Guerra de Preços
O Google reduziu o preço mensal do seu plano de assinatura AI Plus de US$ 7,99 para US$ 4,99 no mercado americano, dobrando simultaneamente o armazenamento incluído de 200 para 400 gigabytes. Isoladamente, um corte de US$ 3 em uma assinatura pode parecer irrelevante. Mas esse movimento merece atenção porque sinaliza que a lógica de preços que vinha sendo testada em mercados emergentes, como a Índia, onde a OpenAI lançou o ChatGPT Go por cerca de US$ 4,60 no ano passado e o Google respondeu com um plano similar abaixo de US$ 5, agora chegou ao mercado mais disputado do mundo. A guerra de preços de assinaturas de IA, que parecia ser um fenômeno periférico, tornou-se central.
Chi-Hua Chien, cofundador da Goodwater Capital, ofereceu ao TechCrunch um paralelo histórico útil para compreender o que está em jogo. Durante a era da web, empresas de infraestrutura como Cisco, Lucent e Akamai chegaram a ocupar posições extremamente valiosas na cadeia tecnológica. Com o tempo, porém, seus produtos foram sendo comoditizados, pois o usuário final jamais se preocupou com quais equipamentos transportavam seus dados; o que importava era que a informação chegasse ao destino da forma mais eficiente e barata possível.
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Segundo Chien, a mesma dinâmica tende a se repetir na atual camada de infraestrutura da inteligência artificial, incluindo até mesmo os provedores de modelos de fronteira, como OpenAI e Anthropic. A tese pode parecer provocadora, mas encontra respaldo em uma lógica estrutural clara: quando o Google, que possui integração vertical praticamente completa, distribuição massiva por meio do Android e do Chrome e a capacidade de incorporar IA aos serviços que bilhões de pessoas já utilizam diariamente, decide competir em preço, as margens das empresas que dependem exclusivamente da venda de acesso a modelos passam a sofrer uma pressão difícil de evitar. Ou seja, em um mercado cada vez mais competitivo, a diferenciação tecnológica tende a perder força, enquanto preço e distribuição ganham relevância.
E o timing não poderia ser mais desconfortável para quem está prestes a abrir capital. Tanto a OpenAI quanto a Anthropic protocolaram seus IPOs na mesma semana em que o Google sinaliza disposição para comprimir margens na camada de acesso ao consumidor. A Anthropic, notavelmente, ainda não lançou preços localizados para mercados como a Índia nem um plano econômico em lugar algum, uma posição que pode se tornar cada vez mais difícil de sustentar à medida que os concorrentes continuem reduzindo preços. Deste modo, o que se desenha não é apenas uma guerra de assinaturas, mas uma disputa sobre onde o valor será capturado na cadeia de IA: se na camada de modelo, onde OpenAI e Anthropic apostam suas fichas, ou na camada de distribuição e ecossistema, onde Google e Apple possuem vantagens que nenhuma startup consegue replicar. A história do Apple II, lançada neste mesmo dia há 49 anos, oferece uma pista: no longo prazo, venceu quem controlou a plataforma, não quem fabricou o chip mais rápido.







