Meta Cai, SoftBank Acelera nos Robôs, Nestlé Compra o Futuro da Refeição e o Cerco à IA
Bom dia! Hoje é 4 de junho. Neste mesmo dia, em 1896, Henry Ford apresentava o Quadriciclo, o primeiro automóvel que projetou e dirigiu, construído nos fundos de um galpão alugado em Detroit enquanto trabalhava como engenheiro-chefe na Edison Illuminating Company. O veículo, movido a gasolina e com apenas quatro cavalos de potência, era tão largo que Ford precisou derrubar parte da parede do galpão para tirá-lo de dentro. Poucos apostavam que aquela engenhoca mudaria algo. Em menos de duas décadas, o mesmo homem reinventaria a produção industrial com a linha de montagem e colocaria o mundo sobre rodas.
Cento e trinta anos depois, a lição do galpão de Detroit permanece intacta: as apostas que redesenham indústrias inteiras raramente são reconhecidas como tal no momento em que são feitas. E o que as notícias de hoje revelam é precisamente isso: um reordenamento silencioso de hierarquias corporativas, bilhões fluindo para máquinas que andam, conglomerados alimentares comprando o que comeremos amanhã e um governo que, pela primeira vez, tenta colocar rédeas nos modelos de inteligência artificial mais poderosos já construídos.
A Meta Cai do Pódio Global
A Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, deixou o ranking das dez empresas mais valiosas do mundo, superada por companhias que se beneficiam diretamente da corrida pela inteligência artificial, semicondutores e computação em nuvem. A Nvidia lidera a lista, seguida por Apple, Alphabet, Microsoft e Amazon, com TSMC, Broadcom, Saudi Aramco, Tesla e Berkshire Hathaway completando o grupo. Apenas uma empresa fora do universo tecnológico, a Saudi Aramco, ainda resiste entre as dez maiores, e mesmo ela opera cada vez mais sob a lógica de transição energética e diversificação de portfólio que a tecnologia impõe ao resto do planeta.
A queda da Meta não é, contudo, um sintoma de fracasso. A empresa segue investindo centenas de bilhões em infraestrutura de IA, mantém a família de modelos Llama entre as mais relevantes do ecossistema aberto e reestruturou recentemente cerca de 10% de sua força de trabalho para realocar milhares de funcionários à divisão de IA Aplicada. Mark Zuckerberg declarou, inclusive, que pretende substituir a maioria das tarefas operacionais internas por agentes autônomos nos próximos anos. Portanto, o problema da Meta não é ausência de ambição tecnológica, mas a percepção do mercado sobre onde, exatamente, essa ambição se materializa em receita. Enquanto rivais como Google, Microsoft e Amazon convertem inteligência artificial em produtos corporativos vendidos em escala, seja como plataformas de nuvem, assistentes empresariais ou ferramentas de produtividade, a Meta embutiu sua IA nativamente dentro de redes sociais, o que é eficaz para manter bilhões de usuários engajados, mas mascara a percepção de que a empresa possui uma oferta de IA com impacto independente e monetizável fora do ecossistema de anúncios.
Há ainda uma assimetria de dados que pesa contra a companhia. A base informacional da Meta, alimentada por feeds sociais e interações pessoais, é qualitativamente diferente daquela usada por IAs voltadas à produtividade corporativa. E as conversas criptografadas do WhatsApp, embora sejam um trunfo enorme de privacidade para os dois bilhões de usuários do aplicativo, impedem seu uso para treinamento de modelos, reduzindo a riqueza de dados disponíveis para a empresa. O resultado é que, como já acompanhamos aqui, a Meta opera um dos maiores investimentos em infraestrutura de IA do planeta, com projeções que caminham para US$ 600 bilhões até 2028, mas Wall Street, neste momento, premia mais quem vende a pá durante a corrida do ouro do que quem a usa para cavar dentro de casa. A pergunta que fica para investidores é se essa percepção mudará quando os agentes de comércio autônomo da Meta, aqueles capazes de recomendar, negociar e executar compras dentro das próprias plataformas, começarem a gerar receita mensurável. Se isso acontecer, a saída do top 10 terá sido apenas um parêntese.
O Futuro É Físico, e o Capital Já Entendeu
O SoftBank está negociando liderar uma rodada de US$ 800 milhões na Agile Robots, startup alemã de robótica industrial, com um cheque estimado em US$ 300 milhões. Fundada em 2018 e sediada em Munique, a Agile Robots desenvolve o conceito de Physical AI, ou seja, hardware robótico integrado a inteligência artificial embarcada – e seu produto principal, o Agile ONE, é um robô humanoide projetado para ambientes industriais, com mãos de alta destreza, percepção avançada e capacidade de interação com humanos. A movimentação se soma à aquisição, no ano passado, da divisão de robôs industriais da suíça ABB por US$ 5,4 bilhões e ao plano de listar nos Estados Unidos uma nova empresa de IA e robótica chamada Roze, com valuation almejado de até US$ 100 bilhões.
Há uma máxima simples, mas poderosa, que resume o que está acontecendo: quer entender o futuro? Acompanhe o capital. O histórico do SoftBank dá peso a essa afirmação, afinal, o conglomerado de Masayoshi Son superou a Toyota para se tornar a empresa mais valiosa do Japão, impulsionado por apostas que pareciam desproporcionais no momento em que foram feitas. O investimento de US$ 20 milhões no Alibaba, nos primeiros anos da internet chinesa, gerou um dos maiores retornos da história. A Arm Holdings, comprada por US$ 32 bilhões e hoje controlada em cerca de 90%, tornou-se a joia da coroa do portfólio com a explosão de demanda por seus chips na corrida da IA. E a participação na OpenAI, de dezenas de bilhões, foi o pilar principal do lucro recorde de US$ 46 bilhões do Vision Fund. Quando o mesmo investidor que acertou Alibaba, Arm e OpenAI direciona bilhões para robótica humanoide, o mercado tende a prestar atenção.
Os números estruturais, ainda, sustentam a tese. Segundo o Goldman Sachs, o mercado global de humanoides deve saltar de cerca de US$ 3 bilhões em 2023 para até US$ 38 bilhões em 2035. O investimento em startups de robótica mais que triplicou em um ano, atingindo US$ 27,6 bilhões em 2025. E, como já acompanhamos aqui nas últimas semanas, o financiamento do setor saltou de US$ 700 milhões em 2018 para US$ 4,3 bilhões em 2025, um aumento de seis vezes em sete anos que confirma uma indústria que deixou a fase de pesquisa e entrou em uma corrida competitiva.
A Japan Airlines já testa humanoides chineses da Unitree em aeroportos, a Meta já adquiriu a Assured Robot Intelligence para seu Robotics Studio, a UPS negocia com a Figure AI e a Tesla projeta vendas do Optimus ao público até o final de 2027. O consenso do setor, portanto, já não é “se” os humanoides virão, mas “quando”, e o fluxo de capital sugere que o “quando” está mais perto do que a maioria imagina.
Nestlé Compra a Refeição do Futuro
A Nestlé assumiu o controle total da Yfood Labs, empresa alemã de substitutos de refeição, em um negócio avaliado em cerca de 450 milhões de euros. A Yfood, fundada em 2017 e também sediada em Munique, fabrica bebidas, pós treinos e barras de proteínas projetadas para funcionar como refeições completas, ou seja, nutricionalmente balanceadas, práticas e voltadas a consumidores com rotinas que não cabem em uma mesa de almoço convencional. A empresa gerou vendas de aproximadamente 150 milhões de euros em 2025, comercializando seus produtos em 30 países europeus, e a aquisição integral pela Nestlé dá à gigante suíça o veículo para acelerar a expansão global de uma marca que opera exatamente no cruzamento entre conveniência, funcionalidade e nutrição.
Esse movimento ganha contornos estratégicos quando lido à luz da reestruturação que a própria Nestlé vem conduzindo nos últimos anos, a qual acompanhamos de perto por aqui. A empresa que por mais de um século prosperou vendendo sorvetes, chocolates e bebidas açucaradas decidiu, recentemente, desinvestir de sua divisão de sorvetes e integrar esse capital em seu setor de nutrição e ciências da saúde, direcionando seu futuro para, entre outras frentes, alimentos funcionais.
A razão para isso é estrutural: a ascensão dos medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, combinada com a consolidação de uma cultura fitness nas classes médias urbanas globais, mudou o carrinho de supermercado do consumidor. Agora, quem toma esses medicamentos come menos, mas precisa compensar a perda de massa muscular com fontes proteicas concentradas e convenientes, sendo exatamente esse perfil de consumidor que a Yfood atende. O mercado de alimentos com proteína adicionada deve crescer cerca de 63% até 2033, e as categorias de indulgência tradicional perdem espaço trimestre após trimestre.
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Ao fim, a compra da Yfood também lança luz sobre uma pressão que tem reverberado por toda a cadeia alimentar: a crise global de oferta de whey protein. A febre por dietas hiperproteicas, acelerada justamente pela popularização das canetas emagrecedoras e pelo uso massivo do ingrediente em snacks, cafés e até waffles industrializados, fez a demanda superar a capacidade de produção, já que o whey é um subproduto do queijo cuja oferta não pode ser simplesmente “ligada” em resposta ao mercado. Com isso, o preço da tonelada atingiu níveis próximos de 20 mil euros, e a escalada de custos pressiona as margens de toda a indústria. Nesse contexto, a Yfood oferece à Nestlé não apenas uma marca, mas uma plataforma de formulação que pode diversificar fontes proteicas e reduzir dependência de um único insumo.
Assim, quando a Ferrero compra a Bold Snacks por R$ 1 bilhão, quando a Ambev lança águas proteicas e quando a Nestlé absorve a Yfood, o que se observa não é uma tendência de nicho, mas a mudança permanente da relação entre o consumidor e aquilo que ele ingere.
IA como Questão de Segurança Nacional
O presidente Donald Trump assinou um decreto que restabelece um arcabouço de supervisão governamental sobre os modelos mais avançados de inteligência artificial produzidos nos Estados Unidos. A medida prevê que empresas como Google, OpenAI e Anthropic submetam, voluntariamente, seus modelos a uma avaliação do governo antes do lançamento, sem que isso constitua, formalmente, um controle prévio obrigatório. O texto também determina a criação de um centro de coordenação para segurança digital em IA, envolvendo o Departamento do Tesouro, a Agência de Segurança Nacional e a CISA, em cooperação com o setor privado e operadores de infraestruturas críticas. A abordagem é, na superfície, semelhante à do decreto de Joe Biden de 2023, o qual o próprio Trump revogou ao retornar à Casa Branca por considerá-lo restritivo demais. A única diferença do seu próprio decreto para o de Biden reside, de fato, no prazo: o exame voluntário dos novos modelos foi reduzido de 90 para 30 dias, com David Sacks, ex-assessor de IA da Casa Branca, justificando que “na corrida pela IA, cada dia conta”.
O que torna esse decreto particularmente revelador é o evento que o precipitou. No início deste ano, o Mythos, modelo da Anthropic classificado internamente como o mais avançado da fronteira, gerou preocupação ao demonstrar capacidade de identificar e expor vulnerabilidades em sistemas digitais de bancos, governos e hospitais, um potencial que, nas mãos erradas, representaria um risco de cibersegurança sem precedentes. A Anthropic optou por não lançar o modelo ao público, uma decisão que ecoou a postura que a empresa já adotara ao recusar a integração irrestrita do Claude em sistemas de armamento do Pentágono, episódio que abordamos em edições anteriores. Então, foi desse cenário concreto que se converteu o debate sobre regulação de IA de questão acadêmica em urgência de segurança nacional.
O decreto também expôs as tensões internas do governo. Uma versão anterior estava prevista para ser assinada em 25 de maio, mas Trump a cancelou horas antes, afirmando que não concordava com “alguns aspectos” e que não queria “comprometer” a vantagem americana sobre a China. Analistas apontaram Sacks como a voz que convenceu o presidente a adiar, revelando o cabo de guerra entre os defensores de alguma regulação e os libertários digitais que resistem a qualquer forma de supervisão estatal. O resultado final, porém, foi quase idêntico ao texto original, o que sugere que as concessões foram cosméticas, não estruturais.
Para nós do mercado, a leitura é dupla: de um lado, o decreto sinaliza que os Estados Unidos reconhecem, pela primeira vez de forma bipartidária, que modelos de IA de fronteira são ativos estratégicos com implicações de segurança comparáveis às de tecnologias nucleares e biológicas; de outro, a abordagem voluntária mantém o poder de decisão nas mãos das mesmas empresas que o governo pretende supervisionar. Sam Altman, CEO da OpenAI, já anunciou que se manifestará contra a proposta durante sua visita a Washington, pedindo mais financiamento para testes no Departamento de Comércio em vez de supervisão direta. A pergunta que permanece, ainda, é a mesma que acompanha toda tentativa de regulação no setor: é possível supervisionar efetivamente uma tecnologia quando os únicos que a compreendem plenamente são aqueles que a constroem?








