JBS na Era do Ozempic, OpenAI no Novo Capitalismo, SpaceX US$ 2 Trilhões e o Web Ataque Norte-Coreano
Bom dia! Hoje é 7 de abril. Neste mesmo dia, em 1969, era publicado o RFC 1, o primeiro documento técnico do que viria a se tornar a internet, uma rede concebida para conectar máquinas entre universidades e que, em poucas décadas, se transformou na infraestrutura sobre a qual se ergueram impérios econômicos, revoluções sociais e novas formas de poder.
Cinquenta e sete anos depois, essa mesma rede enfrenta ameaças que seus criadores jamais imaginariam, enquanto as empresas que nela prosperam tentam redesenhar as próprias regras do capitalismo que as sustenta. Dos frigoríficos brasileiros às propostas políticas do Vale do Silício, o que se debate hoje não é mais como usar a tecnologia, mas quem define as condições sob as quais ela opera.
Das Carnes às Superproteínas
Há uma transformação em curso nos hábitos alimentares globais que não nasceu em laboratórios de tendências nem em campanhas publicitárias, mas em consultórios médicos. Os medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, já são utilizados por milhões de brasileiros, um número que o J.P. Morgan projeta dobrar até 2030. E, diante disso, o efeito colateral menos comentado dessa revolução farmacêutica não é a perda de peso em si, mas a mudança completa da cesta de consumo, afinal, pacientes, agora, abandonam salgadinhos e ultraprocessados e passam a priorizar proteína animal como eixo de suas dietas, seguindo orientação médica para preservar massa muscular e integridade da pele durante o emagrecimento acelerado.
É nesse cenário que a JBS se posiciona com uma vantagem estrutural que poucos concorrentes conseguem replicar. Como observou Guilherme Cavalcanti, CFO global da companhia, durante a CAGNY, o maior encontro anual de analistas de consumo dos Estados Unidos: o portfólio da JBS já é, por definição, proteína, portanto, não há necessidade de adaptação, apenas de aprofundamento num mercado que cresce exponencialmente. E é exatamente isso que a empresa vem fazendo.
A linha Seara Proteina, com teor proteico explícito na embalagem, já reflete a demanda sobre o consumidor brasileiro. Mas a jogada mais sofisticada está na Genu-in, subsidiária criada em 2022 com investimento de R$ 400 milhões, que transforma um subproduto da cadeia frigorífica - a pele do boi - em peptídeos de colágeno com alta margem de lucro, exportados para mais de 20 países. Assim, essa integração vertical converte um resíduo antes descartado em ingrediente funcional premium, sem dependência de fornecedores externos e com custos que concorrentes precisariam de anos e bilhões para replicar.
Esta ambição, ainda, não para na cadeia tradicional. A inauguração da JBS Biotech em Florianópolis, com investimento de US$ 37 milhões, marca a entrada da maior processadora de carnes do mundo no território das chamadas “superproteínas”: ingredientes funcionais desenhados para modular respostas fisiológicas específicas, do ganho muscular ao suporte imunológico, incluindo proteínas cultivadas a partir de cogumelos.
O mercado global de suplementos proteicos já alcança os US$ 30 bilhões, com um crescimento anual de 10%. A JBS, sob este prima, não está apenas surfando uma tendência alimentar, mas está posicionando-se (e se antevendo) como a empresa que fornece tanto a proteína do prato quanto a do suplemento, tanto o bife da refeição quanto o colágeno da cápsula. Em um mundo onde até o Starbucks lança café com proteína, a companhia brasileira demonstra que entendeu antes de muitos: a revolução do GLP-1 não é uma ameaça ao setor de alimentos, é, na verdade, uma transformação da cadeia de valor, e quem já opera no coração da proteína parte com décadas de vantagem.
O Novo Contrato Social da Inteligência Artificial
A OpenAI publicou neste domingo um conjunto de propostas que, lidas em sua totalidade, constituem menos um documento técnico e mais um manifesto sobre como a empresa de US$ 852 bilhões imagina a reorganização econômica de sociedades inteiras sob o impacto da superinteligência.
Com fundos públicos de riqueza alimentados por participações em empresas de IA, impostos sobre robôs, semana de trabalho de quatro dias sem redução salarial e contas de benefícios portáteis que acompanham trabalhadores entre empregos, o cardápio de propostas combina mecanismos historicamente associados à esquerda com uma estrutura inequivocamente capitalista e orientada pelo mercado.
Nas entrelinhas, acreditamos que a mensagem subjacente a carta de Altman é bastante clara, e calculada, afinal, se a IA vai concentrar tanta riqueza de forma sem precedentes, a própria indústria deve liderar o desenho das válvulas de redistribuição dessa renda, antes que legisladores o façam de maneira menos favorável. Isso é, portanto, o poder das gigantes da tecnologia emergindo, de vez, sob políticas públicas de forma escancarada.
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Ainda, o timing da publicação não foi acidental. As propostas surgem em meio à crescente ansiedade pública sobre perda de empregos, expansão agressiva de data centers e uma corrida tecnológica que beneficia visivelmente poucos enquanto redistribui custos para muitos. A OpenAI reconhece explicitamente que o crescimento impulsionado pela IA pode corroer a base tributária que financia programas como Previdência Social, Medicaid (uma cobertura pública de saúde americana) e assistência habitacional, à medida que lucros corporativos disparam e a dependência da renda do trabalho humano diminui.
A solução proposta, de transferir a carga tributária do trabalho para o capital, é provocadora, afinal, um imposto sobre robôs, nos moldes do que Bill Gates sugeriu em 2017, faria a máquina pagar ao sistema a mesma quantia de impostos que o humano que ela substituiu. Já o Fundo de Riqueza Pública daria a todos os americanos uma participação automática na infraestrutura de IA, com retornos distribuídos diretamente aos cidadãos - mesmo àqueles que jamais investiram no mercado.
Ao fim, o documento importa não pelo que resolve, mas pelo que inaugura. Pela primeira vez, uma das maiores empresas de IA do mundo admite publicamente que a transição para a superinteligência exige uma nova forma de política industrial, e que, sem ela, o resultado será concentração de poder em uma escala inédita. A questão que fica é se a indústria que mais se beneficia dessa concentração é, de fato, a mais indicada para desenhar os mecanismos que a contenham.
SpaceX a US$ 2 Trilhões
A Bloomberg informou na última quinta-feira que a SpaceX estaria buscando uma avaliação de cerca de US$ 2 trilhões em sua oferta pública inicial, acima da estimativa anterior de US$ 1,8 trilhão e muito além dos US$ 1,25 trilhão atribuídos à empresa após a fusão com a xAI em fevereiro. Se confirmada, essa cifra colocaria a SpaceX como a sexta empresa mais valiosa dos Estados Unidos, atrás apenas de Nvidia, Apple, Alphabet, Microsoft e Amazon - e representaria cerca de US$ 300 bilhões adicionais ao patrimônio de Elon Musk, elevando-o para além da marca de US$ 1 trilhão.
Há exatamente um ano, a SpaceX valia US$ 350 bilhões. A escalada é, literalmente, estratosférica.
A magnitude dessa demanda reflete uma convergência de fatores que transcendem o mero entusiasmo especulativo. A SpaceX é responsável por mais da metade de todos os lançamentos orbitais do planeta, opera a maior constelação privada de satélites da história com a Starlink e construiu essa liderança com um orçamento total de captação de cerca de US$ 12 bilhões, uma fração do que a NASA investiu apenas no programa SLS, que foi lançado duas vezes desde 2011 enquanto o Falcon 9 da SpaceX superou 640 lançamentos.
Mas o que parece ter efetivamente movido a agulha dessa nova avaliação é a tese dos data centers orbitais, pois Musk, oficialmente, planeja instalar capacidade de computação de IA no espaço, alimentada por energia solar contínua e refrigerada pelo vácuo, eliminando duas das maiores restrições dos data centers terrestres. Para contextualizar a escala do que está em jogo, basta lembrar que a OpenAI está pagando à Oracle US$ 60 bilhões por ano, a partir de 2027, pelo acesso a 4,5 gigawatts de capacidade computacional. A SpaceX pretende colocar múltiplos dessa capacidade em órbita.
O IPO, que pode levantar até US$ 75 bilhões (um recorde absoluto), já atraiu interesse do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, que estuda um aporte de US$ 5 bilhões. As demonstrações financeiras completas ainda não estão disponíveis, mas estimativas apontam para receitas de US$ 25 bilhões em 2026 com margens de Ebitda que podem alcançar 50%, um patamar extraordinário para o setor aeroespacial. A SpaceX, neste momento, deixou de ser apenas uma empresa de foguetes e se tornou uma aposta na infraestrutura civilizacional do século XXI, afinal, quem controla o acesso ao espaço, a conectividade global e a computação orbital controla, em grande medida, os trilhos sobre os quais a próxima economia será construída.
Para investidores, o risco não está na ambição do projeto, mas na premissa de que um único conglomerado pode, de fato, executar tudo isso simultaneamente. A história, contudo, mostra que apostar contra Musk em matéria de execução aeroespacial tem sido, até agora, um exercício de humildade.
A Web sob Ataque
Na última segunda-feira, hackers norte-coreanos sequestram brevemente o Axios, um dos projetos de código aberto mais utilizados na internet, empregado por milhões de desenvolvedores para conectar aplicações à rede (APIs). O ataque, que levou semanas para ser preparado, não foi obra de oportunismo, mas de engenharia social meticulosa: os invasores se passaram por uma empresa real, criaram um ambiente de trabalho no Slack com aparência legítima, fabricaram perfis falsos de funcionários e, ao longo de dias, construíram um relacionamento de confiança com Jason Saayman, o responsável pelo projeto, até induzi-lo a baixar um malware disfarçado de atualização para uma reunião online. Uma vez dentro do sistema, os hackers liberaram versões maliciosas do software que permaneceram disponíveis por cerca de três horas antes de serem removidas, tempo suficiente para potencialmente comprometer milhares de sistemas com roubo de chaves privadas, credenciais e senhas.
O episódio expõe uma vulnerabilidade que a indústria de tecnologia prefere não discutir abertamente: a de que boa parte da infraestrutura digital global - os sistemas bancários, as plataformas de comércio eletrônico e os aplicativos de saúde, por exemplo - repousa sobre bibliotecas de código aberto mantidas, em muitos casos, por equipes reduzidas de voluntários ou desenvolvedores individuais. O Axios, utilizado por milhões de projetos, dependia da integridade de uma única pessoa para que uma atualização maliciosa não se propagasse em escala massiva. Quando um Estado-nação com milhares de hackers altamente organizados, como a Coreia do Norte, responsável pelo roubo de ao menos US$ 2 bilhões em criptomoedas somente em 2025, direciona recursos para comprometer esse tipo de alvo, o desequilíbrio entre ataque e defesa se torna grotesco.
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Os hackers norte-coreanos, como visto neste e em outros muitos casos, operam sob uma lógica de paciência estratégica: semanas ou meses construindo relacionamentos, imitando empresas reais, explorando a confiança humana como porta de entrada. É, portanto, um tipo de engenharia social transformada em arma geopolítica, financiando um programa nuclear que o sistema financeiro global se recusa a bancar (e que ameaça todo o Ocidente). Assim, diante desse e de outros casos semelhantes que já ocorrem, fica claro que os governos ocidentais precisam aprender a lição de que a segurança cibernética deixou de ser um problema técnico confinado a departamentos de TI e se tornou uma questão de soberania, porque, quando a infraestrutura invisível da web é comprometida, o que está em jogo não são apenas dados, mas a confiança sobre a qual toda a economia digital foi construída.









