IPO da Spacex: O Futuro Está à Venda
O IPO da SpaceX marca a chegada ao mercado público de uma nova classe de empresas: lucrativas no presente, mas avaliadas principalmente pelo futuro que prometem construir.
Existe um tipo muito específico de operação financeira em que o objeto à venda ainda está sendo construído. Incorporadoras imobiliárias conhecem bem essa lógica: vendem apartamentos na planta, com uma maquete digital e um memorial descritivo, apostando que o comprador aceitará pagar hoje pelo que só existirá em dois ou três anos. O risco disso, por parte do comprador, é calculado, a promessa é tangível e, na maioria dos casos, o prédio de fato sobe.
O que acontece hoje nos mercados de capitais americanos guarda alguma semelhança com essa dinâmica, mas opera numa escala e num grau de incerteza que nenhuma incorporadora ousaria propor. Nesta sexta-feira, 12 de junho de 2026, a SpaceX começa a ser negociada na Nasdaq sob o ticker SPCX, ao que se sabe, a US$ 135 por ação, numa oferta que pretende levantar US$ 75 bilhões para a empresa. É muito provável que este será o maior IPO em valor nominal já realizado na história, quase três vezes superior ao da Saudi Aramco em 2019 (que era, até então, o maior), e o investidor que comprar essas ações estará comprando uma fatia de algo que já funciona e gera caixa, e, ao mesmo tempo, uma fatia consideravelmente maior de algo que ainda não existe.
Para entender o que exatamente está dentro da caixa que Musk oferece ao mercado, é preciso voltar alguns meses. Em fevereiro deste ano, a SpaceX absorveu a xAI, a empresa de inteligência artificial de Musk, numa transação inteiramente em ações que avaliou o conjunto em US$ 1,25 trilhão. A xAI já havia, meses antes, incorporado o X, a antiga rede social Twitter. Depois, em março, veio o anúncio da Terafab, uma fábrica de semicondutores em Austin, empreendimento conjunto entre Tesla, SpaceX e xAI, com investimento que pode alcançar US$ 119 bilhões. Em abril, a Intel aderiu ao projeto trazendo seu processo de fabricação mais avançado. Em maio, a SpaceX protocolou seu S-1 público junto à SEC. E em junho, nos dias que antecederam o IPO, dois contratos monumentais vieram à tona, onde a Anthropic comprometeu-se com a capacidade integral do data center Colossus 1, e o Google assinou um acordo de US$ 30 bilhões para alugar 110 mil GPUs Nvidia da SpaceX pelos próximos 33 meses, pagando cerca de US$ 920 milhões por mês.
Cada um desses movimentos, isolado, seria (e foi) notícia de capa. Sequenciados em quatro meses, compõem algo diferente: a montagem deliberada de um conglomerado que, no dia de sua estreia em bolsa, já opera simultaneamente em lançamento espacial, telecomunicações por satélite, inteligência artificial, computação de alta performance, redes sociais e, em breve, fabricação de semicondutores. Não há precedente corporativo para essa combinação.
Hoje, a peça que sustenta financeiramente toda essa arquitetura é a Starlink. O serviço de internet via satélite, que começou como projeto de conectividade para áreas remotas, tornou-se o único segmento da SpaceX que gera lucro operacional consistente. No primeiro trimestre de 2026, foram US$ 3,26 bilhões em receita e US$ 1,19 bilhão de resultado operacional positivo, com mais de 10 milhões de assinantes em 164 países. Em 2025, a operação inteira entregou uma margem de lucro de aproximadamente 63%, um número (alto) que se explica pela natureza do negócio, afinal, depois que os satélites estão em órbita, cada novo assinante entra na base de receita com um custo marginal próximo de zero.
É receita recorrente, global e crescente, e é ela que dá ao investidor algum conforto diante do preço que se pede. Mas esse conforto tem limites matemáticos importantes. A receita total da SpaceX em 2025 foi de cerca de US$ 16 bilhões. Mesmo com projeções otimistas para 2026, entre US$ 22 e US$ 24 bilhões, o valuation de US$ 1,77 trilhão implica um múltiplo de mais de 100 vezes a receita. E a composição interna desses números conta uma história que merece atenção, pois enquanto a Starlink lucra, o segmento de foguetes opera em prejuízo, pressionado pelo desenvolvimento da Starship, e o segmento de IA, herdado da xAI, consumiu US$ 6,4 bilhões em 2025 construindo data centers e treinando o modelo Grok, que entrega em contrapartida um faturamento ainda marginal. Sob essa ótica, torna-se claro que o investidor está comprando uma empresa lucrativa cercada por apostas trilionárias. A Starlink pode até pagar as contas do presente, mas o preço das ações reflete o futuro.
E esse não é um fenômeno exclusivo da SpaceX. Cada vez mais, os mercados estão atribuindo valuations trilionários a empresas cujo potencial futuro pesa mais do que seus resultados atuais.
E esse futuro tem uma proposta específica, cuja ambição merece ser examinada com seriedade antes de qualquer ceticismo. A fusão com a xAI trouxe para dentro da SpaceX os data centers Colossus, instalações com mais de 2 gigawatts de capacidade computacional em Memphis, no Tennessee. Da noite para o dia, a SpaceX passou a figurar entre as maiores proprietárias de GPUs do mundo. E o contrato com o Google, divulgado dias antes do IPO, revelou e confirmou essa posição, afinal, quando uma empresa que opera os maiores data centers do planeta precisa alugar sua capacidade para dar conta da demanda de sua plataforma de agentes de IA, significa que o déficit de infraestrutura computacional de todo o setor deixou de ser uma especulação e se tornou, de fato, uma realidade – e uma realidade em que a SpaceX detém oferta para barganhar.
A partir dessa base em solo, a visão de Musk se projeta literalmente para cima. A SpaceX pediu autorização ao governo americano para colocar até 1 milhão de satélites em órbita, o que representaria uma constelação cem vezes maior do que a atual Starlink, concebida para funcionar como uma rede de data centers espaciais. A premissa técnica tem fundamentos que pelo menos justificam a ambição: no espaço, o resfriamento de equipamentos dispensa água, e a energia solar está disponível sem interrupção. Água e energia são os dois recursos que mais restringem e encarecem a expansão dos data centers terrestres, e qualquer solução que mitigue essas restrições altera profundamente a economia da computação em escala. Se essa visão se concretizar, e o “se” aqui carrega todo o peso que deve carregar, a SpaceX não estará apenas vendendo capacidade computacional; estará operando numa camada física que seus concorrentes simplesmente não conseguem alcançar porque não têm foguetes.
É aí que a Terafab entra na equação. A fábrica de chips em Austin foi projetada para produzir dois tipos de semicondutores: processadores de inferência para veículos e robôs da Tesla, e processadores de alta potência, resistentes à radiação, desenhados para operar em satélites de computação orbital. Musk declarou que a produção global atual de semicondutores cobre apenas 3% da demanda combinada de suas empresas nos próximos anos. Mesmo considerando a hipérbole habitual, a frase traduz uma decisão estratégica com consequências geopolíticas reais, pois Musk, ao invés de depender indefinidamente da TSMC ou da Samsung, optou por tentar fabricar seu próprio silício. A Intel aderiu ao projeto em abril. O custo projetado pode superar US$ 100 bilhões. E 80% da capacidade computacional produzida, segundo o próprio Musk, será direcionada para aplicações espaciais, com apenas 20% destinado a operações em solo. Esses números, se levados a sério e concretizados, revelam que a Terafab não foi concebida como suporte às operações existentes, mas foi concebida como a base industrial de algo que ainda não existe. Novamente, o futuro.
O que surge dessa soma de movimentos é um ciclo que se retroalimenta com uma eficiência industrial difícil de ignorar, ainda que igualmente difícil de verificar no curto prazo. Na visão apresentada por Musk, satélites passariam a transportar carga computacional para o espaço. Foguetes reutilizáveis garantiriam a manutenção e logística contínuas. Data centers orbitais processariam os modelos de IA. Chips fabricados internamente alimentariam toda a cadeia. A plataforma X forneceria dados em tempo real. E a Starlink conectaria tudo, do solo à órbita, gerando a receita que financia a próxima rodada de expansão. Cada peça justifica a existência das demais. É um sistema fechado que, em teoria, se fortalece a cada iteração, sendo justamente essa circularidade que torna a empresa tão sedutora para investidores e tão difícil de avaliar por métodos tradicionais, já que ainda não sabemos como se precifica um conglomerado cujo valor depende de todas as partes funcionarem simultaneamente, quando várias delas ainda estão em construção.
E esse questionamento não se aplica apenas à SpaceX, e é aqui que o IPO de hoje ganha sua dimensão mais ampla. A Anthropic protocolou seu pedido confidencial de IPO junto à SEC em 1º de junho, uma semana depois de fechar uma rodada Série H que a avaliou em US$ 965 bilhões. A lista de investidores dessa rodada inclui Amazon, Google, Microsoft Azure, Samsung e Micron, ou seja, os maiores fornecedores globais de nuvem, memória e semicondutores, gente que compra infraestrutura, não slide decks. A OpenAI confirmou seu próprio filing em 8 de junho, com analistas projetando uma avaliação que pode superar US$ 1 trilhão quando as ações chegarem ao mercado, possivelmente ainda neste ano. Juntas, as três companhias podem demandar mais de US$ 200 bilhões dos mercados públicos, mais de quatro vezes o que todo o mercado americano de IPOs movimentou em 2025, quando a soma total foi de US$ 45 bilhões.
Até agora, esses valuations trilionários foram construídos em rodadas privadas, validados por fundos soberanos, gestoras de venture capital e gigantes da tecnologia. A partir de hoje, será a vez do mercado aberto dizer se concorda com os preços.
O que conecta essas três operações vai além da coincidência temporal. Todas compartilham uma mesma condição: vendem, em graus variados, algo que ainda não se materializou por completo. A SpaceX vende a promessa de computação orbital e autossuficiência em silício. A Anthropic vende a trajetória de uma empresa cuja receita anualizada saltou de US$ 10 bilhões para US$ 47 bilhões em um ano, mas que depende de contratos bilionários de infraestrutura para operar seus modelos em escala. A OpenAI vende a marca mais reconhecida da inteligência artificial generativa, mas opera com um burn rate projetado de US$ 27 bilhões para 2026, perdendo aproximadamente US$ 1,22 para cada dólar que fatura. São três empresas com narrativas poderosas, posições competitivas reais e déficits operacionais igualmente reais. E as três pedem ao investidor público que compre hoje, pelo preço mais alto já praticado em suas respectivas histórias, aquilo que só se confirmará nos próximos anos.
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Voltamos, portanto, à maquete. Quem compra um apartamento na planta aceita o risco da entrega porque confia na construtora, conhece o terreno e entende o mercado local. Quem compra SPCX hoje, ou quem comprará ações da Anthropic e da OpenAI nos próximos meses, aceita um risco de natureza diferente: confia que a inteligência artificial justificará, retroativamente, os preços que estão sendo cobrados agora. Confia que a demanda por infraestrutura computacional continuará crescendo a taxas que sustentem múltiplos de 100 vezes a receita. Confia que data centers orbitais, fábricas de chips e modelos de linguagem que queimam dezenas de bilhões por ano encontrarão, em algum momento, o equilíbrio entre custo e valor. O futuro está à venda. O preço foi definido. O que ninguém ainda pode garantir é a entrega.








