iFood Pharmacy, Demissões Foram Erro, China Vence a Copa dos Robôs e Desafia a Meta
Bom dia! Hoje é 7 de julho. Neste mesmo dia, em 1752, nascia Joseph-Marie Jacquard, o inventor francês que criou o tear automatizado por cartões perfurados, uma máquina que, pela primeira vez na história, usou instruções codificadas para ensinar um equipamento a executar tarefas complexas sem intervenção humana. A invenção revolucionou a indústria têxtil, tornou a França líder mundial em tecidos de seda e, não por acaso, provocou revoltas entre os tecelões de Lyon, que viram suas habilidades artesanais se tornarem dispensáveis da noite para o dia.
Duzentos e setenta e quatro anos depois, a tensão inaugurada por Jacquard permanece como a questão central da era tecnológica: o que acontece quando as máquinas aprendem a fazer o que os humanos faziam? Hoje, a pergunta não é mais sobre teares, mas sobre farmácias que migram para dentro de aplicativos, empresas que demitem milhares para depois admitir que erraram, robôs que jogam futebol melhor do que seus criadores esperavam e óculos que prometem substituir o smartphone sem precisar de câmera. Em todos os casos, o padrão é o mesmo: a máquina avança, o humano se reposiciona, e quem define os termos dessa transição captura o valor da próxima era.
O iFood Agora É uma Farmácia
O braço de farmácia do iFood atingiu R$ 3,4 bilhões em valor total transacionado nos últimos doze meses, segundo relatório do Citi. O número já seria expressivo para qualquer empresa do setor farmacêutico ligar seu sinal de alerta, mas o que realmente incomoda as redes tradicionais é a velocidade com que ele chegou ali: somente no último ano, o iFood adicionou R$ 1,5 bilhão em vendas incrementais de farmacos, o equivalente a 30% de todo o crescimento da Raia Drogasil no mesmo período e próximo da soma dos avanços de Pague Menos e Panvel juntas.
Isso, em outras palavras, significa que uma plataforma que nasceu entregando pizza está crescendo, no varejo farmacêutico, no mesmo ritmo das maiores redes de farmácia do Brasil.
A dinâmica por trás desse avanço é a mesma que transformou a Amazon de uma livraria à infraestrutura do comércio global. Quando uma plataforma acumula distribuição, logística de última milha, dezenas de milhões de usuários recorrentes e dados granulares sobre hábitos de consumo, invadir mercados adjacentes deixa de ser um tipo de diversificação e se torna consequência natural da arquitetura que já existe.
O iFood, sob essa análise, não precisou construir uma rede de farmácias próprias. Não. Ele precisou apenas conectar sua infraestrutura de entrega às farmácias que já existiam, oferecendo a redes de menor porte algo que elas não conseguem construir sozinhas: uma plataforma digital e funcional, com tráfego garantido e uma estrutura logística pronta. Para essas redes, o iFood se tornou a única via de acesso ao e-commerce farmacêutico – o qual se torna cada vez mais essencial para vendas de varejo; já para o iFood, cada farmácia conectada é mais uma camada de recorrência dentro de um ecossistema que já inclui, além dos restaurantes, soluções de pagamento, supermercados, pet shops e conveniências.
O Citi, porém, aponta dois riscos para o setor diante dessa escalada do iFood: a diluição de margem das farmácias que vendem via aplicativo e o acirramento da concorrência entre os players. Ambos são reais, mas revelam algo mais profundo. Revelam que quando o canal de distribuição quem captura uma parcela crescente da decisão de compra, o poder migra de quem fabrica ou estoca o produto para quem controla o ponto de contato com o cliente. A Raia Drogasil, com sua operação digital própria, pode sustentar independência. Redes menores, não. E para o iFood, a farmácia não é destino, mas é apenas mais uma estação numa rota que obedece a uma lógica implacável: uma vez que você possui o hábito do consumidor e a rota até a porta dele, todo mercado adjacente se torna um possível novo mercado endereçável.
Zuckerberg Admite que Errou ao Trocar Gente por IA
Mark Zuckerberg reconheceu, num memorando interno obtido pela Reuters, que a Meta cometeu erros na reestruturação de sua força de trabalho orientada por inteligência artificial. A confissão vem depois de a empresa cortar 10% dos funcionários globais em maio e transferir outros 7 mil para iniciativas ligadas a fluxos de trabalho de IA, um processo que, nas palavras do próprio CEO, foi mais turbulento do que o planejado.
Zuckerberg prometeu, agora, “fornecer o máximo de estabilidade possível” daqui em diante para seus funcionários, embora tenha feito a ressalva de que “o mundo está mudando de maneiras que fogem ao nosso controle”. A empresa agora tenta realocar os profissionais que haviam sido deslocados para treinar modelos, e planeja ampliar orçamentos para eventos corporativos e hackathons como forma de recompor o clima interno, com medidas que soam como curativos sobre uma ferida que é, na verdade, estrutural e que, cada vez mais, será recorrente (e não há nada que podemos fazer).
A franqueza de Zuckerberg é rara e importa menos pelo que diz sobre a Meta do que pelo que revela sobre o estágio real da substituição de trabalho humano por IA no setor de tecnologia como um todo. A narrativa dominante no Vale do Silício ao longo do último ano foi a de que empresas poderiam cortar camadas inteiras de funcionários, realocar orçamento para infraestrutura computacional e emergir mais enxutas, mais rápidas e mais lucrativas. Meta, Amazon, Microsoft e Google seguiram essa cartilha quase simultaneamente, cortando dezenas de milhares de posições enquanto investiam centenas de bilhões em data centers e chips.
Agora, a maior dessas empresas a testar a tese na prática reconhece que “cometeu erros e quase certamente cometerá mais”. A lição não é que a IA não possa substituir trabalho humano, isso é claro que ela vai fazer. Mas é que a substituição não funciona como um interruptor que se liga, mas como um processo longo, confuso e cheio de consequências que nenhuma planilha de capex antecipou. A velocidade com que se demite não é a mesma com que se aprende a operar sem as pessoas que se demitiu.
A China Vence a Copa dos Robôs… Contra Si Mesma
A China conquistou pela segunda vez consecutiva a RoboCup, a maior competição mundial de robótica e inteligência artificial, encerrada neste domingo em Incheon, na Coreia do Sul. Na categoria de robôs humanoides de grande porte, a equipe Tsinghua Vulcan venceu a equipe Mountain and Sea da Universidade Agrícola, ambas chinesas.
A final disputada entre duas equipes do mesmo país é mais eloquente do que qualquer relatório setorial: a China não apenas lidera a corrida da robótica humanoide; ela já ocupa os dois lados do pódio, e o restante do mundo assiste da arquibancada.
Os números que sustentam essa posição são difíceis de contestar. A China possui mais robôs industriais instalados do que o restante do planeta somado, responde por mais de 80% das instalações globais de robôs humanoides e produz as plataformas que equipam as equipes campeãs em competições internacionais. O avanço da inteligência artificial embarcada e da locomoção autônoma tem sido tão acelerado que um robô humanoide chinês chamado Lightning completou a meia-maratona de Pequim em tempo inferior ao recorde mundial humano. A RoboCup, criada em 1997 com o objetivo declarado de que robôs vencessem a seleção campeã mundial de futebol até 2050, parecia, há poucos anos, uma ambição folclórica. Já não parece mais.
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O que essas competições acadêmicas de robótica revelam, e que governos ocidentais demoram a assimilar, é que elas funcionam como um tipo de viveiro de engenheiros e tecnologias que, uma década depois, definem liderança industrial em automação, manufatura e defesa. Quando universidades chinesas dominam esse viveiro com a naturalidade de quem disputa a final contra si mesmo, o sinal não é apenas de escala fabril, mas é de fundamentos de pesquisa que alimentarão a próxima geração de sistemas autônomos nos armazéns, nas fábricas e nos campos de batalha.
Os robôs que tropeçam e se levantam no gramado de Incheon hoje serão os que operam logística, patrulham fronteiras e montam veículos amanhã. E, por enquanto, quem os projeta, os treina e os coloca para competir fala mandarim.
Os Óculos Chineses que Desafiam a Meta Sem Câmera
A Even Realities, fabricante chinesa de óculos inteligentes fundada por um ex-engenheiro da Apple, virou unicórnio ao levantar US$ 150 milhões numa rodada que a avaliou em US$ 1 bilhão.
A empresa, criada em 2023 por Will Wang, que trabalhou no desenvolvimento do Apple Watch e do iPhone em Cupertino entre 2016 e 2018, faz uma aposta que se define inteiramente pela diferença em relação à líder do mercado: ao contrário dos Ray-Ban da Meta, equipados com câmera e hardware de gravação, os óculos G2 da Even Realities não possuem câmera nenhuma. Em vez de gravar o mundo ao redor, eles projetam informação diretamente nas lentes, com mensagens, navegação e tradução ao vivo, com o argumento de que o futuro dos dispositivos vestíveis não é capturar a realidade, mas sobrepor inteligência a ela sem invadir a privacidade de quem está por perto.
A decisão de abrir mão da câmera é uma inversão deliberada da lógica dominante no setor, e carrega um cálculo estratégico preciso consigo, uma vez que a Meta construiu seus óculos sobre a premissa de que a câmera é o sensor mais valioso num vestível, onde, para muitos casos de uso, está certa. Mas a câmera é também o componente que gera mais atrito social: pessoas não gostam de ser filmadas sem consentimento, reguladores europeus já questionam a legalidade de gravação em espaços públicos, e a memória do fracasso do Google Glass, que naufragou em grande parte por rejeição à câmera embutida, permanece viva no setor (mesmo diante do sucesso dos óculos da Meta).
A Even Realities aposta que existe um mercado enorme para óculos que informam sem constranger, e o fato de mais da metade de seus usuários e 80% de sua comunidade de desenvolvedores estarem nos Estados Unidos, apesar de a empresa ser chinesa e ainda não vender na própria China, sugere que a tese tem uma certa tração real.
A história da tecnologia ensina que o vencedor em dispositivos de consumo raramente é quem oferece mais funcionalidades, mas é quem acerta a combinação exata entre utilidade, conforto social e preço. Um par de óculos sem câmera, que custa uma fração do Vision Pro e não constrange quem está na mesa ao lado, pode estar mais perto dessa combinação do que qualquer dispositivo carregado de sensores. Se a Even Realities provar isso em escala, a tese da Meta de que o vestível do futuro é uma câmera com IA embarcada precisará ser seriamente repensada, e o mercado que parecia se consolidar em torno de um único formato terá, mais uma vez, sido surpreendido por um competidor que entendeu que, às vezes, fazer menos é a forma mais inteligente de fazer mais.







