Google: o maior vencedor do ano
Existe uma forma preguiçosa de ler os IPOs que vêm aí, e uma forma que importa. A preguiçosa olha para a SpaceX e a Anthropic, vê dois dos maiores eventos de mercado da década se aproximando, e pergunta quem vai ficar rico no dia da abertura. A resposta óbvia são os fundadores, os funcionários, os fundos que entraram cedo.
A leitura que importa olha para quem não vai aparecer na manchete e, ainda assim, sai como o maior ganhador da rodada inteira. Esse nome é o Google.
Vamos aos números, porque eles dispensam adjetivos.
Em 2015, o Google assinou um cheque de US$ 900 milhões para a SpaceX, quando a empresa valia US$ 12 bilhões. Um registro regulatório no Alasca revelou que, no fim de 2025, essa participação era de 6,11%, depois diluída para perto de 5% com a fusão com a xAI. Num IPO de US$ 2 trilhões, essa fatia vale algo entre US$ 100 bilhões e 122 bilhões. É um retorno de 110 a 135 vezes sobre o valor original.
Na Anthropic, o aporte foi de aproximadamente US$ 3 bilhões (e não os US$ 13 bilhões que circulam por aí, número que mistura o dinheiro do Google com o da Amazon). A participação é de cerca de 14%, com um teto contratual de 15%. Na avaliação atual de US$ 965 bilhões, essa fatia vale perto de US$ 135 bilhões. Um retorno de aproximadamente 45 vezes.
Somadas, as duas posições custaram menos de US$ 4 bilhões. Quando os dois IPOs saírem, podem valer perto de US$ 240 bilhões. Para efeito de comparação, o lucro anual do Google gira em torno de US$ 100 bilhões. A carteira de venture vale mais de dois anos da operação inteira.
Mas o múltiplo é a parte fácil da história. A parte que quase ninguém nomeou está embaixo dele. A Starlink roda na Google Cloud. A Anthropic se comprometeu a usar a infraestrutura de TPUs do Google em escala de gigawatts. Repare no que isso significa: o Google não é apenas acionista das duas empresas que estão construindo a infraestrutura da próxima década, conectividade orbital e inteligência artificial de fronteira. Ele também é fornecedor das duas.
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É aí que o jogo muda de natureza. O Google monetiza o crescimento dos próprios concorrentes duas vezes. Uma vez como dono de um pedaço que se valoriza a cada rodada. Outra vez como vendedor de computação que essas empresas precisam comprar para continuar crescendo. Cada gigawatt que a Anthropic consome para treinar o modelo que ameaça a busca do Google é uma fatura que a Anthropic paga ao Google.
O mercado passou três anos perguntando se a IA destruiria o Google. A pergunta estava errada desde o começo. Enquanto a narrativa girava em torno da ameaça, o Google se posicionou para lucrar com ela de qualquer ângulo: se a busca resistir, ótimo; se a IA vencer, o Google é acionista e fornecedor de quem venceu.
O verdadeiro vencedor do ano não é quem vai abrir o capital. É quem financiou, hospedou, e ainda vai lucrar com o IPO dos outros.



