Google Arma o Pentágono, Uber e iFood Devoram Tudo, Musk vs. Altman e a IA quer Guerrear
Bom dia! Hoje é 30 de abril. Neste mesmo dia, em 1975, tanques norte-vietnamitas atravessavam os portões do Palácio da Independência em Saigon, encerrando duas décadas de guerra e redesenhando o mapa geopolítico do Sudeste Asiático. A queda de Saigon ensinou ao mundo uma lição que permanece atual: vácuos de poder não duram. Quando um ator recua, outro avança, e raramente pede permissão para ocupar o espaço deixado.
Cinco décadas depois, essa mesma dinâmica se repete em campos de batalha muito diferentes: nos contratos de defesa da inteligência artificial, nas plataformas que disputam cada minuto da sua rotina, nos tribunais que decidem quem controlará a tecnologia mais poderosa já criada e nos terrenos acidentados onde máquinas autônomas aprendem, pela primeira vez, a lógica da guerra.
Não Existe Vácuo de Poder
A atual decisão do Google de conceder ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos acesso irrestrito à sua inteligência artificial em redes classificadas não é, em si, surpreendente. Mas o que a torna reveladora é o contexto em que ocorre, afinal, com isso, a empresa preenche um espaço aberto pela recusa pública da Anthropic em aceitar os mesmos termos, após o Pentágono exigir uso sem salvaguardas contra vigilância doméstica em massa e armas autônomas.
Em um histórico mais estrutura, a Anthropic foi a empresa que resistiu e, por isso, foi classificada como “risco para a cadeia de suprimentos” (uma designação normalmente reservada a adversários estrangeiros) e agora litiga contra o Departamento de Defesa nos tribunais. E, ao passo que isso aconteceu, a OpenAI assinou imediatamente com o Pentágono, a xAI também, e agora o Google completa o trio, transformando a perda ética de um concorrente em ganho comercial próprio.
O acordo do Google inclui uma cláusula declarando que a empresa “não pretende” que sua IA seja usada para vigilância em massa ou armas autônomas, linguagem semelhante à do contrato da OpenAI. Mas, como reportou o Wall Street Journal, não está claro se tais disposições são juridicamente vinculativas ou executáveis. A diferença entre a posição da Anthropic e a das demais é, portanto, a diferença entre uma restrição com dentes e uma declaração de intenções sem consequências contratuais.
Ainda, para os 950 funcionários do Google que assinaram uma carta aberta pedindo que a empresa seguisse o exemplo da Anthropic, a resposta da empresa perante sua nova “parceria” foi o silêncio corporativo. Paralelamente, um grupo de investidores que administra coletivamente US$ 1,15 trilhão em ativos, dentro os quais ações da controladora do Google, enviou uma carta à Alphabet questionando como a empresa supervisiona o uso de sua tecnologia de nuvem e IA por governos, evidenciando que a pressão não vem apenas de dentro, mas também do capital.
Ao fim, o episódio cristaliza um dilema que definirá a próxima década da indústria de IA, onde empresas que recusam contratos militares por princípios éticos perdem receita e influência estatal sobre como a tecnologia é empregada, mas empresas que aceitam, ganham contratos bilionários, com o brinde de responsabilidade sobre usos que podem se revelar humanitariamente catastróficos.
E, a lição histórica que este episódio nos deixa é inequívoca: não existe vácuo de poder. Quando um ator se retira, outro ocupa seu lugar, frequentemente com menos escrúpulos. A Anthropic pode ter preservado sua integridade, mas o Pentágono obteve exatamente o que queria, apenas de um fornecedor diferente. A pergunta que resta é se o mercado, no longo prazo, recompensará a prudência ou a submissão. Por enquanto, os contratos estão fluindo para quem disse “sim”.
O Super App Quer Devorar Tudo
A Uber anunciou que seus usuários nos Estados Unidos podem, a partir de agora, reservar hotéis diretamente pelo aplicativo, em parceria com o Expedia Group, com acesso a mais de 700 mil propriedades globais. Quase simultaneamente, no Brasil, o iFood revelou a aquisição da startup de reservas Get In e o lançamento do “iFood para Comer Fora”, funcionalidade que permite reservar mesas, obter descontos e fazer check-in em restaurantes físicos pelo mesmo aplicativo que antes só entregava comida na porta de casa. Os dois movimentos, em continentes distintos, obedecem à mesma lógica inexorável onde plataformas que já conquistaram a atenção do usuário em um contexto específico estão expandindo seus tentáculos para capturar toda a cadeia de decisão adjacente.
O caso da Uber é particularmente instrutivo sobre o papel acelerador da IA nessa expansão. Segundo o CTO da empresa, Praveen Neppalli Naga, funcionalidades como a de reserva de hotéis, que antes levariam ao menos um ano para serem desenvolvidas, foram construídas em metade do tempo graças a ferramentas de IA agêntica que aceleraram todo o processo. O Modo Viagem, que oferece guias turísticos personalizados, o “Eats for the Way”, que permite encomendar um lanche para estar esperando dentro do carro, e a futura integração com o OpenTable para reservas em restaurantes compõem um ecossistema em que o aplicativo deixa de ser um meio de transporte e se torna o sistema operacional da viagem inteira.
“Não somos mais apenas um aplicativo para viagens”, declarou Khosrowshahi, em uma frase que resume tanto uma ambição quanto uma advertência ao mercado.
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Do lado do iFood, a estratégia é espelhada, mas adaptada ao contexto brasileiro. Ao adquirir a Get In e lançar ferramentas de reserva, fila digital e cashback para consumo presencial, a empresa ataca um território que, no mercado brasileiro, permanecia analógico, pois menos de 45% dos restaurantes brasileiros oferecem reserva de mesa, e apenas cerca de 5 mil usam um aplicativo para isso. Contudo, o mais provável não é uma vontade do iFood de mudar hábitos de um povo cada vez mais acostumado com o delivery, mas sim o desejo de ter acesso a uma camada de dados ainda maior para seu sistema, sendo este o ativo mais valioso dessa operação, afinal, ao registrar o comportamento do consumidor dentro do restaurante físico, o iFood fecha o ciclo entre descoberta digital e consumo presencial, oferecendo aos estabelecimentos parceiros uma inteligência que nenhuma plataforma de delivery, sozinha, conseguia entregar.
Portanto, para restaurantes a proposta do iFood se torna ainda mais valiosa, ao passo que plataforma se torna uma verdadeira gestora de demanda para seus parceiros, e não uma mera intermediária de logística, como muito a veem. Porém, para concorrentes menores, a mensagem é dura, pois quando plataformas com dezenas de milhões de usuários decidem que seu próximo mercado é o seu, a assimetria de dados, distribuição e capital torna a competição quase impossível.
Diante dos casos, vemos que o super app, como modelo de negócio, não cresce por diversificação, mas cresce por gravitação, atraindo para sua órbita cada vez mais decisões do cotidiano do usuário até que sair da plataforma se torne mais custoso do que permanecer.
Musk e Altman nos Tribunais
O julgamento entre Elon Musk e Sam Altman, iniciado esta semana em um tribunal federal na Califórnia, ultrapassa a disputa pessoal entre dois bilionários e se instala no centro da questão mais consequente da indústria tecnológica contemporânea: quem controla a inteligência artificial que pode definir o equilíbrio de poder global? Musk acusa Altman de tê-lo enganado em milhões de dólares e de ter traído a missão original sem fins lucrativos da OpenAI, transformando-a em uma máquina de geração de lucro para a Microsoft. A OpenAI, por sua vez, alega que Musk é movido por inveja e arrependimento por ter deixado a empresa em 2018, e que agora tenta prejudicar um concorrente direto de sua própria startup, a xAI.
Diante disso, e deixando o ego dos empresários de lado, o que importa são os fatos contidos neste. A OpenAI foi fundada em 2015 como uma organização sem fins lucrativos dedicada a garantir que a inteligência artificial geral beneficiasse toda a humanidade. Sob essa ótica, Musk doou cerca de US$ 40 milhões para a empresa e, segundo sua narrativa, foi progressivamente marginalizado até ser deixado de lado como opção para o cargo de CEO.
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Após sua saída, a OpenAI criou um braço com fins lucrativos, atraiu investimento massivo da Microsoft e lançou o ChatGPT, que atingiu 100 milhões de usuários em tempo recorde. E, assim, a empresa, que antes operava sob princípios de abertura e cautela, hoje se aproxima de um IPO estimado em US$ 850 bilhões. Musk, por sua vez, fundou a xAI, adquirida pela SpaceX, e tentou comprar a OpenAI por US$ 97,4 bilhões, oferta rejeitada por Altman com a provocação pública de que preferia comprar o Twitter por US$ 9,74 bilhões.
Em face a tudo isso, o que está verdadeiramente em jogo, para além das personalidades, é um precedente sobre a natureza jurídica e ética das organizações que desenvolvem IA de fronteira. Se Musk vencer, a tese de que empresas de IA não podem abandonar compromissos filantrópicos originais sem consequências legais ganhará força, potencialmente restringindo a liberdade de outras organizações de reestruturarem seus modelos de negócio. Se Altman prevalecer, o mercado receberá o sinal de que promessas fundacionais são, na prática, retóricas e que a escala comercial justifica qualquer metamorfose corporativa. O júri de nove pessoas em Oakland decidirá o caso sob a supervisão da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, com depoimentos esperados de Satya Nadella, Mira Murati, Ilya Sutskever e Shivon Zilis. O julgamento durará um mês, mas suas consequências para a governança da IA se estenderão por décadas. Como observou uma analista, “um vence, mas o que fica é um rastro com o qual o resto de nós terá de conviver”.
A IA que Aprende a Guerrear
A Scout AI, startup fundada em 2024 que se autodenomina “laboratório de vanguarda para a defesa”, captou US$ 100 milhões em uma rodada Série A para desenvolver o Fury, um modelo de inteligência artificial projetado para operar e comandar recursos militares, de veículos autônomos a drones de munição. Em uma base militar na Califórnia, quadriciclos equipados com o sistema da Scout já percorrem trilhas acidentadas em missões simuladas, aprendendo a navegar terrenos que desafiam até motoristas experientes. A tecnologia utiliza modelos de Visão, Linguagem e Ação (VLAs), a mesma arquitetura que impulsiona startups de robótica como a Physical Intelligence e a Figure AI, mas direcionada a um propósito que a maioria das empresas de IA civil evita discutir abertamente: o combate.
O que distingue a Scout de iniciativas anteriores de autonomia militar é a ambição de construir não apenas veículos que se movem sozinhos, mas uma camada de inteligência capaz de raciocinar sobre ameaças e coordenar múltiplas plataformas simultaneamente. O produto “Ox”, um software de comando e controle, pretende permitir que um único soldado coordene dezenas de drones e veículos terrestres por meio de comandos em linguagem natural: “Vá até este ponto e fique atento às forças inimigas”. As primeiras aplicações serão logísticas, como reabastecimento automatizado e comboios autônomos, mas a empresa não esconde que o horizonte inclui armas autônomas capazes de identificar e engajar alvos com mínima ou nenhuma intervenção humana.
A convergência entre o contrato do Google com o Pentágono e a ascensão de startups como a Scout desenha um panorama que merece uma atenção cuidadosa. Afinal, a inteligência artificial está deixando de ser uma tecnologia em busca de aplicação para se tornar a espinha dorsal de uma nova doutrina militar, onde drones substituem soldados em missões de risco, modelos de linguagem coordenam operações em tempo real e a vantagem competitiva entre nações se mede em petaflops, não em efetivos. O CTO da Scout, Collin Otis, critica abertamente empresas que resistem a entregar IA ao governo, referindo-se diretamente à posição da Anthropic: “o pessoal da IA não quer trabalhar com os militares”. A frase revela a tensão central de nossa época, de que a mesma tecnologia que promete revolucionar medicina, educação e produtividade é, simultaneamente, a que mais interessa a quem detém o monopólio da força. E, como mostram os US$ 100 milhões investidos na Scout, o capital não tem dúvidas sobre qual aplicação escala mais rápido.










