EUA em Pequim, OpenAI no Corporativo, Intel na Encruzilhada e Uber Quer Ser Tudo
Bom dia! Hoje é 12 de maio. Neste mesmo dia, em 1941, o engenheiro alemão Konrad Zuse apresentava ao mundo o Z3: o primeiro computador digital programável e totalmente automático da história. A máquina, construída em plena Segunda Guerra Mundial com recursos escassos e sem apoio estatal relevante, inaugurou a era da computação moderna.
Oitenta e cinco anos depois, os descendentes conceituais do Z3, chips capazes de processar trilhões de operações por segundo, são o recurso estratégico mais disputado do planeta. Quem fabrica, quem controla e quem distribui poder computacional define, hoje, quem governa a economia global.
É sob essa lógica que se pode ler os acontecimentos desta semana: de uma delegação de bilionários americanos em Pequim a uma corrida pelo mercado corporativo de inteligência artificial, passando por uma fabricante de chips que precisa provar ao mundo que ainda sabe competir.
A Diplomacia dos Presidentes Ocultos
Donald Trump viaja à China nesta semana para um encontro presencial com Xi Jinping, o primeiro em mais de seis meses, com uma agenda que abrange Irã, Taiwan, armas nucleares, inteligência artificial e a prorrogação de um acordo sobre minerais de terras raras. Mas o detalhe mais revelador não está na pauta oficial do presidentes, muito pelo contrário, está na comitiva que vai junta à ele. Elon Musk, Tim Cook, Larry Fink (BlackRock), Stephen Schwarzman (Blackstone), David Solomon (Goldman Sachs), Jane Fraser (Citigroup) e Dina Powell McCormick (Meta) estão entre os mais de uma dúzia de executivos convidados pela Casa Branca para acompanhar o presidente.
O que se vê aqui não é apenas uma viagem diplomática com adereços corporativos. É, de fato, a materialização de uma arquitetura de poder, além da política, que Washington opera há décadas, mas raramente exibe com tanta transparência: a fusão entre Estado e capital privado na condução da política externa. Afinal, quando os CEOs da BlackRock, da Blackstone e do Goldman Sachs sentam à mesa junto ao presidente dos Estados Unidos, eles não são meros figurantes, mas são, na prática, negociadores paralelos que representam trilhões de dólares em ativos e interesses que atravessam fronteiras, setores e jurisdições. A presença de Musk e Cook adiciona uma camada ainda mais explícita, já que ambos possuem operações industriais profundamente dependentes da China, e qualquer acordo (ou ruptura) os afetaria diretamente.
O pano de fundo geopolítico é igualmente denso. A China mantém laços estreitos com o Irã e segue sendo uma grande compradora de petróleo iraniano, o que dá a Pequim uma influência sobre os persas que Washington não possui no conflito que se estende desde fevereiro (e vem abalando os mercados). Taiwan, por outro lado, permanece como o ponto de maior fricção entre os países, e a questão dos minerais de terras raras, cuja trégua comercial pode ou não ser estendida, expõe a dependência americana em cadeias de suprimentos controladas pela China. Desse modo, esta viagem não é apenas sobre comércio ou distensão, é sobre a redefinição das regras de coexistência entre as duas maiores economias do mundo. E a composição da delegação americana revela quem, de fato, participa na hora de escrever essas regras.
OpenAI na Guerra pelo Corporativo
A OpenAI oficializou nesta segunda-feira o lançamento da Deployment Company, uma joint venture focada em levar seus produtos de inteligência artificial diretamente para dentro das operações de grandes empresas. Com mais de US$ 4 bilhões captados e a aquisição da Tomoro, uma consultoria especializada em implementação de IA com clientes já consolidados (como Mattel, Red Bull e Tesco), a nova unidade adiciona cerca de 150 engenheiros dedicados a integrar modelos de IA em ambientes corporativos complexos.
Este movimento é, ao mesmo tempo, uma evolução natural e uma resposta urgente da gigante da IA. Natural porque, com mais de um milhão de empresas já utilizando suas APIs, a OpenAI acumulou demanda reprimida por serviços que vão além do acesso ao modelo, ou seja, a elaboração de diagnósticos de processos, reformulações em fluxos de trabalho, construção de sistemas personalizados conectados à infraestrutura interna de cada cliente etc. Urgente porque a Anthropic, com o Claude, vem avançando com velocidade no mercado empresarial, conquistando grandes corporações que buscam modelos mais robustos para uso em ambientes de missão crítica.
A nomenclatura escolhida pela OpenAI para seus profissionais, “Forward Deployed Engineers”, é, inclusive, emprestada da Palantir, a empresa de Peter Thiel que praticamente inventou esse modelo de atuação no setor de defesa e inteligência. A referência, por óbvio, não é casual, pois assim como a Palantir, a OpenAI quer se tornar indispensável ao transformar-se em infraestrutura permanente dentro das organizações.
Diante disso, o que está em jogo é muito maior do que uma disputa por contratos corporativos, afinal, a empresa que conseguir se integrar mais profundamente às operações de grandes companhias, não como fornecedora de API, mas como parceira de transformação operacional, criará um nível de dependência difícil de reverter. A Reuters revelou, na semana passada, que tanto OpenAI quanto Anthropic estavam negociando aquisições de empresas de implementação em parceria com fundos de private equity, o que sinaliza que ambas entendem a mesma coisa: na corrida pela IA corporativa, quem chega primeiro e se enraíza mais fundo vence. E o prêmio não é apenas receita, mas é o controle sobre como as maiores organizações do mundo tomam decisões.
A Pressão de Quem Precisa se Provar
Lip-Bu Tan completa um ano como CEO da Intel em um momento paradoxal, onde as ações da empresa renovaram máximas históricas, Apple e Tesla demonstram interesse em sua capacidade de fabricação, e Elon Musk visitou pessoalmente uma fábrica no Oregon na semana passada. Ao mesmo tempo, mais de uma dúzia de funcionários e ex-funcionários relatam que Tan ainda não apresentou, internamente, um plano detalhado para consertar produtos e linhas de produção da empresa, e que passou mais tempo fora dela do que dentro, desde que assumiu o cargo.
O paradoxo, contudo, tem explicação. O que Tan fez até agora foi essencialmente político: reconstruiu a imagem da Intel junto ao governo americano, transformando um atrito público com Trump em uma participação acionária que fez dos Estados Unidos o terceiro maior acionista da companhia, e consolidou alianças com players como Musk e Apple. Sendo estas respectivamente, uma parceria com Musk para construir um gigantesco complexo fabril e um acordo preliminar com a Apple para potencialmente produzir processadores de seus dispositivos.
Sem dúvida, estas conquistas são relevantes, Contudo, elas são políticas e comerciais, não operacionais. E é justamente na operação que a Intel sangra: sua taxa de rendimento (yield) gira em torno de 65%, contra mais de 80% da TSMC, o que se traduz em custos por chip até três vezes maiores do que os da líder taiwanesa, sendo que apenas 8% dessa diferença se explica pela mão de obra americana mais cara. Ou seja, o restante do problema é pura ineficiência fabril.
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A equação que Tan enfrenta é, portanto, brutalmente simples na teoria e quase impossível na prática: ele precisa convencer rivais a gastarem bilhões migrando parte de sua produção para a Intel, mas nenhum deles quer ser o primeiro a apostar em um fornecedor que ainda não provou ser confiável. Enquanto isso, Jensen Huang, da Nvidia, sinalizou na conferência GTC que a demanda futura por CPUs (o principal produto da Intel) será explosiva nos data centers de IA. É uma janela de oportunidade real, mas que só se concretiza se Tan conseguir, simultaneamente, montar uma equipe de liderança competente (ele mira o fim de junho para concluir contratações), melhorar rendimentos fabris e entregar produtos competitivos. O relógio corre contra ele, pois ecossistemas tecnológicos não esperam por ninguém, e a história da indústria de semicondutores está repleta de empresas que tiveram a estratégia certa, mas chegaram tarde demais.
O Superapp que Corre Contra o Tempo
Assim como relatamos anteriormente por aqui, a Uber anunciou, em seu evento anual GO-GET, que usuários americanos agora poderão reservar hotéis diretamente pelo aplicativo, por meio de uma parceria com o Expedia Group, com acesso a mais de 700 mil propriedades. Membros do Uber One, a assinatura de US$ 9,99 por mês, receberão, ainda, 20% de desconto em hotéis selecionados e 10% de volta em créditos. Além disso, aluguéis de imóveis de temporado pelo Vrbo e reservas em restaurantes pelo OpenTable virão ainda este ano. O recurso “Compre para Mim” permite, inclusive, que usuários façam compras em lojas que sequer estão na plataforma.
Em conjunto, e na perspectiva de uma análise mais apurada, esses anúncios desenham a imagem mais concreta do que a Uber tenta construir desde 2019: um superaplicativo à americana. Ou seja, por em prática a tese é que um aplicativo com 199 milhões de usuários ativos mensais, todos com cartão de crédito já cadastrado, pode se tornar o aplicativo que as pessoas usam para praticamente tudo. E a assinatura é a cola que sustenta essa estratégia, afinal, cada nova categoria (comida, supermercado, hotel, restaurante) dá ao usuário mais um motivo para manter o Uber One. A lógica dessa estratégia é criar no usuário um fluxo contínuo: pegar um Uber, ir ao aeroporto, chegar ao hotel, jantar em um restaurante… onde cada etapa gera receita e reforça a permanência no ecossistema.
Mas a Uber não corre sozinha. O Airbnb anunciou em março uma parceria com a Welcome Pickups para oferecer traslados de aeroporto em 125 cidades, mantendo o usuário dentro de seu próprio aplicativo em vez de enviá-lo ao Uber. Musk continua prometendo transformar o X em um superapp nos moldes do WeChat, com o X Money prestes a ser lançado. E, no fundo, a razão mais profunda para a pressa da Uber é outra: a Waymo. À medida que veículos autônomos se tornam viáveis em escala, o negócio central de transporte por aplicativo enfrenta uma ameaça existencial. Se o motorista humano sai da equação, o que impede a Waymo, a Tesla ou qualquer fabricante de operar sua própria rede de transporte? A resposta da Uber é clara: tornar-se tão indispensável no cotidiano do usuário que o transporte seja apenas uma entre muitas razões para abrir o aplicativo.
Seus números mais recentes sustentam a aposta, pois a receita de entregas cresceu 34% no primeiro trimestre, atingindo US$ 5,07 bilhões e praticamente empatando com o transporte em reservas brutas. A questão é se essa diversificação virá rápido o suficiente para blindar a empresa quando os carros começarem a dirigir sozinhos em escala. Ao fim, vemos a Uber, com seu super ativo, os dados dos usuários, tentar dissolver suas fronteiras e expandir sua zona da atuação para sobreviver num mundo cada vez mais dinâmico, um movimento que chamamos de Anomalias de Mercado.






