Disney + TikTok, SpaceX Cai, iFood Usa IA Sem Demitir e Robinhood Abre o Vale do Silício ao Varejo
Bom dia! Hoje é 6 de agosto. Neste mesmo dia, em 1991, Tim Berners-Lee publicava, a partir de um computador no CERN, na Suíça, a primeira página da World Wide Web, um documento simples que explicava o que era a web e como usá-la. Não havia imagens, não havia vídeos, não havia anúncios. Apenas texto, links e a ideia radical de que a informação deveria ser acessível a qualquer pessoa com uma conexão. Berners-Lee poderia ter patenteado a tecnologia e cobrado por ela. Decidiu não fazer isso, e essa decisão moldou o mundo em que vivemos.
Trinta e cinco anos depois, a questão que Berners-Lee respondeu com generosidade, quem tem acesso e a que preço, permanece como a pergunta central da economia digital, só que agora as respostas são menos idealistas e mais transacionais. A Disney abre seus personagens ao TikTok porque precisa de acesso a um público que não assiste TV. A SpaceX descobre que o acesso ao crescimento da IA custa mais do que o mercado está disposto a pagar. O iFood dá a todos os seus funcionários acesso a IA sem demitir ninguém, e admite que 85% dos usos não fazem diferença. E a Robinhood promete dar ao investidor comum acesso a startups do Vale do Silício, num modelo que já gerou controvérsias antes mesmo de estrear. Em todos os casos, a pergunta é a mesma que em 1991: o acesso é real, ou é apenas a promessa dele?
A Disney Abre Suas Portas ao TikTok
A Disney e o TikTok fecharam a primeira parceria desse tipo entre uma empresa tradicional de mídia e a plataforma de vídeos curtos. O acordo permite que criadores de conteúdo usem personagens e cenas de centenas de filmes e séries da Disney, incluindo produções da Pixar, Marvel, Star Wars e FX, para gravar vídeos curtos no TikTok. Ainda, uma seleção curada desses vídeos gravados gerados no app chinês será exibida numa nova aba do Disney+ chamada Verts, desenhada para atrair o público que consome vídeos verticais no celular. Isso é impressionante, pois marca a primeira vez em que vídeos do TikTok serão exibidos em outra plataforma.
A decisão da Disney carrega uma admissão que anos de resistência, de todo o setor de mídia tradicional, não conseguiram evitar: os novos consumidores, o público jovem, não vai mais até o conteúdo – agora, o conteúdo precisa ir até ele, no formato e na plataforma em que ele já está o dia todo. E esta plataforma é o TikTok.
Um dado bastante revelador que pode respaldar, comercialmente, essa parceria é o fato de que os usuários do TikTok compartilharam, em média, 6,5 milhões de publicações relacionadas a filmes e programas de TV por dia no ano passado, algo que quase metade dos entrevistados numa pesquisa afirmaram ter assistido a um filme ou programa após descobri-lo no TikTok. Em outras palavras, o TikTok já funciona como um dos maiores, senão o maior, canal de descoberta de conteúdo audiovisual do mundo, e a Disney, em vez de competir com ele, decidiu alimentá-lo com seu catálogo para capturar parte dessa atenção e redirecioná-la ao Disney+.
A parceria também sinaliza uma mudança estrutural no modelo de streaming. O Disney+ e seus concorrentes foram construídos sobre a premissa de que o espectador abriria o aplicativo, navegaria pelo catálogo e escolheria o que assistir – a lógica da prateleira. O TikTok, contudo, opera sob lógica oposta, onde o conteúdo vem até você, algoritmicamente, sem que você precise procurar. Ao criar a aba Verts com vídeos verticais do TikTok, a Disney está importando essa lógica para dentro do seu próprio serviço, reconhecendo que o formato longo e horizontal que sustentou Hollywood por um século divide agora espaço com o formato curto e vertical que uma geração inteira trata como nativo.
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Nesse contexto de virada, outros players do setor também estão, aos poucos, se adaptando ao novo cenário que lhes é imposto. A Paramount+ já oferece séries em formato vertical. A Netflix tem os Clips – um feed contínuo de vídeos curtos verticais no aplicativo. E agora a Disney entra com o peso de seu catálogo. À luz dessas transformações, podemos inferir que a guerra do streaming deixou de ser apenas sobre o que se assiste e passou a ser sobre como se assiste. E quem define o formato define o consumo.
A SpaceX Cai Abaixo do Preço do IPO
As ações da SpaceX caíram em até 11,5% no pré-mercado nesta quarta-feira, ficando abaixo dos valores de US$ 135 do IPO, isso há menos de dois meses após a estreia que foi celebrada como a maior abertura de capital de 2026. A reação do mercado ao primeiro balanço da empresa como companhia aberta, que cobrimos na edição de ontem, confirma o diagnóstico que fizemos: investidores olharam para os números e viram dois negócios radicalmente diferentes embrulhados no mesmo papel, e decidiram que o que paga a conta (Starlink) não cobre o que queima caixa (IA).
A SpaceX tentou acalmar os mercados destacando que a receita com IA mais do que triplicou e que a rentabilidade dos investimentos está melhorando. Mas o diretor financeiro também sinalizou que os gastos com IA continuarão no mesmo patamar – cerca de US$ 16 bilhões por trimestre – nos próximos dois períodos, enquanto a empresa expande sua capacidade computacional, sua produção da Starship e a próxima geração de satélites Starlink. A promessa é que, se a demanda por computação de IA se mantiver forte o suficiente, a divisão eventualmente financiará seu próprio crescimento sem depender do caixa da Starlink. O “se” nessa frase é o que derrubou a ação.
O contexto mais amplo é o que transforma a queda da SpaceX de um evento isolado em um tipo de sintoma sistêmico. Analistas como Ray Dalio e Jeremy Grantham vêm argumentando que o entusiasmo em torno da IA alimenta uma dinâmica clássica de bolha, com expectativas excessivas, avaliações extremas, alavancagem financeira e uma onda de IPOs que, historicamente, antecedem correções. A IA teria prolongado e ampliado uma superbolha que já existia nos mercados, criando riqueza sobretudo no papel. A SpaceX não é a causa dessa dinâmica, mas é, possivelmente, sua ilustração mais visível: uma empresa avaliada em US$ 2 trilhões cujo negócio mais celebrado (IA e data centers espaciais) opera no vermelho, enquanto o negócio que realmente gera caixa (Starlink) não recebe nem metade da atenção. Quando o mercado começar a separar promessa de entrega, e a queda abaixo do preço do IPO sugere que esse processo pode estar começando, a distância entre os dois será o que definirá quem fica de pé.
O iFood Usa 27 Mil Agentes de IA… e Não Demitiu Ninguém
Enquanto Google, Amazon, Meta e Microsoft cortaram dezenas de milhares de funcionários nos últimos dois anos sob o argumento de que a IA tornaria parte da força de trabalho dispensável, o iFood fez o oposto: ampliou o uso de inteligência artificial e, ao mesmo tempo, quadruplicou o quadro de funcionários. A empresa tinha 2 mil pessoas há seis anos, chegou a 5 mil no fim de 2024 e atingiu 8 mil no ano passado. Em paralelo, 27 mil agentes de IA foram criados para atuar nos processos e na rotina da companhia. A proporção é de mais de três agentes por funcionário, e, ainda assim, ninguém perdeu o emprego por causa deles.
A honestidade com que o VP de Pessoas do iFood descreve os resultados é rara o suficiente para merecer nossa atenção. Segundo ele, mais de 85% dos usos de IA não trazem nenhum efeito substancial na produtividade, mas trazem apenas melhorias incrementais, como consolidar notícias ou padronizar informações. Outros 13% já geram impacto nos times, gerando análises mais rápidas e consistentes, por exemplo. E apenas 2% realmente mudam o ponteiro do negócio. Admitir que só uma fração mínima do investimento em IA move os resultados é, neste momento de hype em que o mercado todo vende a tecnologia como revolução imediata, um ato de franqueza que coloca o iFood numa posição incomum: a de empresa que sabe exatamente o que a IA faz e o que ela não faz.
A perspectiva da empresa é de manter os 8 mil funcionários no patamar atual enquanto amplia o uso de IA – uma estabilização, não uma expansão, mas tampouco um corte. A aposta é que a produtividade por funcionário crescerá à medida que mais agentes forem integrados à operação, permitindo que o iFood cresça em receita sem precisar crescer proporcionalmente em pessoal. Para os 92% dos funcionários de escritório que já utilizam ferramentas de IA no dia a dia, a tecnologia assumiu tarefas simples e liberou tempo para atividades mais complexas. Para o mercado de trabalho brasileiro, onde 48% das pessoas temem perder o emprego para a IA segundo o Datafolha, o modelo do iFood oferece uma alternativa ao roteiro de cortes em massa que as big techs americanas normalizaram, ou seja, a de que adotar IA e manter pessoas não são escolhas mutuamente excludentes, desde que a empresa saiba, com clareza, para que serve cada uma.
A Robinhood Quer Que Você Invista em Startups do Vale do Silício
A Robinhood anunciou o roadshow de IPO do Robinhood Ventures Fund II, um fundo que promete dar a investidores comuns acesso a um portfólio de 80 startups privadas do Vale do Silício em estágio inicial, algo historicamente restrito a fundos de venture capital e investidores credenciados. As cotas estreiam na Bolsa de Nova York em 13 de agosto, a US$ 25 por ação, sob o ticker RVII. O fundo é estruturado como uma Business Development Company, o que significa que negocia em bolsa como uma ação comum, podendo, assim, qualquer pessoa comprar e vender a qualquer momento, sem exigência de renda mínima, patrimônio elevado ou período de lock-up.
O modelo resolve uma dor real de uma parcela de investidores menor que querem ser, também, investidores-anjos. A dor, é de que o tempo médio entre a fundação de uma empresa e seu IPO passa, nos dias de hoje, por cerca de 14 anos. Isso significa que boa parte da valorização dessas companhias acontece enquanto elas ainda são privadas, fora do alcance do investidor comum. O RVII propõe eliminar essa barreira, permitindo que qualquer pessoa compre uma cota e ganhe sua exposição proporcional a 80 startups sem esperar que nenhuma delas abra capital. A liquidez em bolsa, nesse contexto, substitui os anos de espera de um fundo tradicional de VC.
Contudo, vale ressaltar que empresa em questão, a Robinhood, já enfrentou controvérsias ao lançar, para investidores europeus, tokens que ofereciam um tipo de “exposição indireta” à OpenAI, um produto que parte dos compradores entendeu como ações da empresa, quando na verdade eram instrumentos financeiros vinculados a um veículo de propósito específico. A OpenAI, à época, declarou publicamente que não havia participado nem endossado a iniciativa.
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É importante relembrarmos o caso pois o RVII opera sob uma lógica similar: o investidor não compra ações das startups, ele compra, na verdade, uma cota de um fundo que possui participações nelas. Assim, a diferença entre possuir o ativo e possuir exposição ao ativo é sutil, mas pode ser decisiva quando as coisas dão errado. Fora isso, a democratização do acesso a venture capital é uma ideia poderosa. Mas, como Berners-Lee demonstrou em 1991, a questão nunca foi se o acesso é possível; foi se quem o recebe entende exatamente o que está acessando.






