Data Centers no Espaço, Netflix, Pentágono Recorre à Anthropic e os Juros Sufocantes
Bom dia! Hoje é 13 de maio. Neste mesmo dia, em 1888, a Princesa Isabel, uma das maiores líderes da história do Brasil, assinava a Lei Áurea, abolindo formalmente a escravidão no Brasil e encerrando um dos capítulos mais longos e terríveis da exploração humana nas Américas.
Cento e trinta e oito anos depois, a busca por liberação continua, mas, agora, os grilhões são de outra natureza. As restrições que hoje aprisionam a indústria tecnológica são físicas: falta de energia, limites de refrigeração, escassez de espaço em solo terrestre.
E, como veremos a seguir, as maiores corporações do planeta estão apostando em uma saída que, até poucos anos atrás, pertencia ao domínio da ficção científica: o espaço sideral. Enquanto isso, no Brasil, outra forma de aprisionamento, os juros mais altos em duas décadas, cobra seu preço sobre o varejo, sufocando empresas que não encontraram, a tempo, a porta de saída.
Google e SpaceX Negociam Data Centers em Órbita
A notícia de que o Google está em negociações com a SpaceX para lançar centros de processamento de dados ao espaço não deveria surpreender quem acompanha a trajetória recente de ambas as empresas, já que a formalização dessa conversa não se trata de nenhuma grande novidade, mas representa um marco na corrida pela infraestrutura computacional do século XXI. O projeto, conduzido internamente pelo Google sob o nome de Suncatcher, visa conectar satélites equipados com TPUs (os chips de inteligência artificial proprietários da empresa) alimentados por energia solar ininterrupta, com um primeiro protótipo previsto para 2027 em parceria com a Planet Labs. A SpaceX, por sua vez, já vinha sinalizando que a computação orbital seria um dos pilares estratégicos de sua próxima fase, especialmente após a fusão com a xAI no início do ano.
O racional por trás dessa movimentação é tão simples quanto poderoso: a demanda energética para treinar e operar modelos de inteligência artificial está se tornando incompatível com a infraestrutura terrestre disponível. Assim, atualmente, data centers convencionais enfrentam três gargalos simultâneos, o da energia elétrica, o da água para refrigeração e o do espaço físico, uma vez que a escalada do consumo já sobrecarrega redes elétricas em regiões como Virgínia, nos Estados Unidos, que concentra a maior densidade de data centers do mundo. No espaço, esses três problemas simplesmente desaparecem: a energia solar seria contínua e abundante, o vácuo eliminaria a necessidade de refrigeração ativa, e o “terreno” disponível é, para todos os efeitos práticos, ilimitado. Estimativas do setor apontam que data centers orbitais poderiam reduzir custos energéticos em até dez vezes em relação aos equivalentes terrestres.
O que torna este movimento particularmente revelador, porém, é a teia de alianças que ele denuncia. Na semana passada, a Anthropic concordou em utilizar toda a capacidade computacional das instalações Colossus 1 da SpaceX em Memphis, e manifestou interesse em colaborar no desenvolvimento de vários gigawatts de centros de dados orbitais. Ou seja, a mesma SpaceX que serve de plataforma de lançamento para o Google está simultaneamente fornecendo infraestrutura para sua maior concorrente no campo da IA. Esse arranjo expõe uma realidade estrutural do momento: a demanda por computação é tão avassaladora que até rivais diretos são forçados a compartilhar a mesma infraestrutura de base. A computação orbital, portanto, não é apenas uma solução técnica, mas é a emergência de uma nova categoria de ativo civilizacional, e quem a construir primeiro poderá definir, em grande medida, os trilhos sobre os quais a próxima economia global irá operar.
Netflix e os US$ 135 Bilhões que Mudaram o Entretenimento
A Netflix revelou que investiu mais de US$ 135 bilhões em filmes e séries na última década, um número que, por si só, já seria impressionante, mas que ganha contornos ainda mais significativos quando colocado em perspectiva. Durante o mesmo período, a empresa afirma ter contribuído com mais de US$ 325 bilhões para a economia global e gerado mais de 425 mil empregos em produções ao redor do mundo. De fato, com 325 milhões de assinantes pagos até o final de 2025, a plataforma não é apenas a maior distribuidora de entretenimento sob demanda do planeta, mas é, na prática, uma das maiores máquinas de captura de atenção humana já construídas.
O dado mais revelador apresentado no relatório da empresa, no entanto, não está nos números absolutos, mas na transformação cultural que eles representam. Títulos em idiomas diferentes do inglês já correspondem a mais de um terço de todas as visualizações dentro da plataforma, ante menos de um décimo há uma década. Produções como “Round 6”, “La Casa de Papel” e “Guerreiras do K-Pop” não apenas atraíram audiências globais, mas desencadearam efeitos econômicos mensuráveis em seus países de origem: a Coreia do Sul, por exemplo, registrou um aumento de 25% nas reservas de passagens aéreas e o Duolingo observou um crescimento de 22% nos estudos de coreano após a estreia de “Guerreiras do K-Pop”. A Netflix, deste modo, deixou de ser um serviço de streaming para se tornar uma espécie de vetor de soft power cultural, assim como as big techs, capaz de alterar fluxos turísticos, padrões de consumo linguístico e até mesmo a geopolítica da indústria criativa (uma vez que a empresa constantemente é alvo de embates ideológicos).
Simultaneamente, a empresa está integrando inteligência artificial em sua estratégia de maneiras que merecem atenção. A nova funcionalidade de descoberta de conteúdo com IA, alimentada pelo ChatGPT da OpenAI, permite que usuários descrevam seus estados emocionais, com expressões como “preciso chorar”, “me ajude a ficar acordado”, e recebam recomendações contextuais que vão muito além dos algoritmos tradicionais de sugestão.
Em paralelo, também, o lançamento do Clips, um feed de vídeos curtos a lá TikTok, na versão mobile, revela que a Netflix compreendeu algo que seus concorrentes mais tradicionais, como os canais de TV, ainda relutam (e relutarão) em aceitar: na economia da atenção contemporânea, a batalha não é mais apenas pelo tempo de exibição, mas pela jornada completa de descoberta. Ao centralizar busca, recomendação e consumo dentro de seu próprio ecossistema,sem depender de assistentes de voz de terceiros ou mecanismos de busca externos, a Netflix replica a mesma lógica que tornou a Apple poderosa: um ambiente fechado onde cada interação reforça a permanência do usuário.
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Ao fim, para o cinema convencional e as redes de televisão, a mensagem é bastante clara e fácil de entender: a vantagem da Netflix não reside apenas no tamanho de seu catálogo, mas em sua capacidade de transformar atenção passiva em engajamento ativo, e engajamento em dados, e dados em mais conteúdo, um ciclo virtuoso que se retroalimenta com uma eficiência que nenhuma sala de cinema ou grade de programação linear consegue replicar.
Pentágono Recorre à Anthropic Apesar do Divórcio
Em um dos episódios mais reveladores das tensões entre ética tecnológica e imperativo de segurança nacional, o Pentágono anunciou a implementação do Mythos, o modelo de cibersegurança da Anthropic, para identificar e corrigir vulnerabilidades de software em todo o governo dos Estados Unidos. Contudo, a ironia dessa decisão é evidente e quase literária, ao passo que o movimento se trata da mesma provedora de IA que o governo Trump classificou como “risco para a cadeia de suprimentos” após a recusa da empresa em permitir que o Claude fosse utilizado sem restrições em sistemas de armamento autônomos e vigilância doméstica em massa.
Essa decisão, porém, pode ser explicada. O modelo em questão, o Mythos, opera em um território onde a pragmática supera a política, afinal, este foi considerado um dos mais poderosos e potencialmente perigosos já criados no campo da cibersegurança, sendo capaz de identificar e corrigir vulnerabilidades complexas em navegadores, infraestruturas bancárias e softwares de defesa em minutos (tarefas que equipes humanas levariam dias para executar). Emil Michael, diretor de tecnologia do Departamento de Defesa, foi direto ao ponto ao classificar a adoção como “um momento de segurança nacional”, reconhecendo que, embora modelos concorrentes da OpenAI, xAI e Google estejam a caminho, nenhum deles atingiu, ainda, o nível de capacidade cibernética do Mythos. A confissão, portanto, é tão pragmática quanto embaraçosa: o governo que puniu a Anthropic por seus princípios éticos agora depende dela para proteger suas redes.
A situação expõe uma contradição estrutural que definirá a próxima década da inteligência artificial. De um lado, governos exigem acesso irrestrito a modelos cada vez mais poderosos, tratando qualquer restrição como ameaça à soberania. De outro, as próprias capacidades desses modelos, como a de encontrar milhares de falhas de segurança em softwares de infraestrutura amplamente utilizados, tornam a liberação indiscriminada um risco existencial. A Anthropic escolheu restringir; o Pentágono a puniu por isso; e agora recorre a ela porque ninguém mais consegue fazer o que o Mythos faz. Essa sequência não é apenas uma anedota política, mas é a demonstração concreta de que, na era da IA avançada, o poder não reside mais apenas em quem possui a tecnologia, mas em quem consegue calibrar, com precisão, o equilíbrio entre capacidade e controle. E, pelo menos neste momento, a empresa que melhor entendeu esse equilíbrio é justamente a que foi punida por praticá-lo.
Os Juros que Sufocam o Varejo Brasileiro
O pedido de recuperação judicial do Grupo Toky, dono das redes Tok&Stok e Mobly, com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, não é um evento isolado, mas o sintoma mais recente de uma patologia econômica que vem corroendo o tecido empresarial brasileiro de forma sistemática. A Selic a aproximadamente 15% ao ano, o nível mais elevado desde 2006, transformou o custo do crédito em um garrote para empresas que operam em setores dependentes de financiamento ao consumo, como o varejo de móveis e decoração. O Grupo Toky citou explicitamente o ambiente macroeconômico, as taxas de juros elevadas e o maior endividamento das famílias como fatores determinantes para sua situação, uma descrição que poderia ser copiada, quase palavra por palavra, dos comunicados da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, que protocolaram pedidos de recuperação extrajudicial em março deste ano.
O, assim, padrão é claro e os números não deixam margem para interpretações alternativas. Com taxas médias de crédito para produção próximas de 25% ao ano, empresas que dependem de capital de giro veem suas margens se comprimirem a cada ciclo de rolagem de dívida. Pesquisas indicam que 77% das indústrias investiriam mais se a taxa de juros caísse, um dado que revela o nível de represamento de capital produtivo na economia. A Lupo, uma das marcas mais tradicionais do varejo têxtil brasileiro, transferiu parte de sua produção para o Paraguai, citando impostos e complexidade burocrática.
Diante deste cenário, o caso certamente não é excepcional, mas é emblemático de um processo de desindustrialização que, sob juros restritivos, se retroalimenta: empresas perdem competitividade, migram operações, reduzem empregos e, com isso, diminuem a renda disponível para consumo, que por sua vez pressiona ainda mais o faturamento das varejistas que permanecem.
O paradoxo da política monetária brasileira em 2026 é que ela tenta resolver um problema, a inflação resistente e os riscos fiscais, ao custo de agravar outro: a destruição de valor no setor produtivo. E enquanto as grandes potências tecnológicas investem trilhões em infraestrutura de IA, data centers orbitais e plataformas globais de entretenimento, o Brasil assiste à quebradeira de suas varejistas históricas, preso em um ciclo onde o remédio contra a inflação é também o veneno que impede o investimento, a inovação e a competitividade. A questão que se impõe não é se mais empresas seguirão o mesmo caminho; é quantas sobreviverão o suficiente para estar de pé quando os juros, finalmente, cederem.






