China Rouba a Anthropic, Chips Valem Trilhões e Encarecem o Mercado e o Brasil Testa o Yuan
Bom dia! Hoje é 26 de junho. Neste mesmo dia, em 2000, o presidente Bill Clinton anunciava na Casa Branca a conclusão do primeiro rascunho do genoma humano, resultado de um projeto internacional que levou uma década e custou bilhões de dólares para decodificar as instruções biológicas que definem a vida.
Vinte e seis anos depois, a corrida por decodificar informação assumiu outra forma, mas obedece à mesma lógica: quem lê o código primeiro define quem lucra com ele. Hoje, os “genomas” mais disputados não estão nas células, mas nos pesos de modelos de inteligência artificial, nos chips de memória que alimentam seus servidores e nas moedas que financiam suas cadeias de suprimento. E, como as notícias de hoje demonstram, a disputa por esse código já não respeita fronteiras entre ciência, comércio e soberania.
O Alibaba e o Maior Roubo de IA Já Registrado
A Anthropic levou ao Senado dos Estados Unidos o que ela descreve como a maior operação de extração ilícita de conhecimento já identificada contra seus modelos de inteligência artificial. Segundo documentos confirmados pela CNBC, o laboratório de IA do Alibaba teria conduzido, entre abril e junho deste ano, cerca de 28,8 milhões de interações com o Claude, utilizando aproximadamente 25 mil contas falsas em uma operação coordenada de destilação, ou seja, uma técnica pela qual um modelo mais simples aprende a replicar as capacidades de um sistema mais avançado a partir de suas respostas.
Em termos práticos, é como se alguém registrasse, pergunta por pergunta, o raciocínio de um especialista para depois construir uma cópia capaz de reproduzi-lo sem ter passado pelo treinamento original.
O episódio é revelador menos pela técnica do “roubo” em si, que é conhecida e amplamente utilizada na indústria, e mais pela escala e pela origem. A destilação faz parte do repertório legítimo de desenvolvimento de IA, mas quando conduzida por milhares de contas falsas contra um modelo privado, ela cruza a linha que separa pesquisa de espionagem industrial. E a Anthropic não aponta apenas o Alibaba: a carta enviada aos senadores menciona movimentações semelhantes envolvendo a DeepSeek, a Moonshot AI e a MiniMax, sugerindo que a prática se tornou uma estratégia sistêmica no ecossistema chinês de inteligência artificial.
O contexto, ainda, amplifica a gravidade do ocorrido. O Alibaba já figura na lista do Pentágono de empresas ligadas ao aparato militar chinês, classificação que o grupo contesta, mas que contamina qualquer avaliação sobre a intenção por trás da operação. Em paralelo, a própria Anthropic enfrenta restrições de exportação impostas pelo governo americano sobre seus modelos mais avançados, o Fable 5 e o Mythos 5, sob alegação, vista agora, real, de riscos à segurança nacional. O resultado é um cenário em que as duas maiores potências tecnológicas do mundo tratam o assunto acerca dos modelos de IA não como produtos comerciais, mas como ativos estratégicos cuja transferência equivale, na prática, a transferência de capacidade militar.
Para o setor como um todo, o caso Alibaba acelera um desdobramento que já estava em curso: a fragmentação da inteligência artificial em blocos geopolíticos. Se empresas chinesas não podem acessar modelos americanos por meios legítimos e recorrem à destilação em escala industrial, e se Washington responde com restrições cada vez mais amplas, o resultado é a consolidação de dois ecossistemas de IA cada vez mais isolados, um ocidental e um chinês, com regras, padrões e capacidades que divergem progressivamente.
A ironia é que essa separação pode produzir exatamente o que ambos os lados dizem querer evitar: uma corrida sem freios em que nenhum dos competidores aceita se submeter a normas comuns de segurança, porque não confia que o outro fará o mesmo. Em outras palavras, uma nova Guerra Fria.
A Memória de IA que Vale Mais do que a Meta
A Micron Technology ultrapassou nesta quinta-feira, pela primeira vez, o valor de mercado da Meta e, brevemente, também o da Tesla, após divulgar projeções de receita e lucro para o próximo trimestre que superaram todas as expectativas dos analistas. A fabricante americana de chips de memória, que há poucos anos era tratada pelo mercado como uma empresa cíclica e pouco glamourosa, agora vale mais de US$ 1,2 trilhão, e o motivo é um único componente que poucos consumidores conhecem pelo nome, mas sem o qual nenhum modelo de inteligência artificial consegue operar.
O chip em questão é a memória de alta largura de banda, peça essencial nos servidores que treinam e executam modelos de IA. A demanda por esses componentes explodiu a ponto de os três maiores fabricantes do mundo, a Samsung, a SK Hynix e a própria Micron, terem redirecionado suas linhas de produção para priorizar esse tipo de memória, onde as margens de lucro são significativamente maiores. O problema é que essa priorização deixou uma lacuna enorme na oferta de memória convencional, aquela que vai dentro de celulares, tablets e computadores.
Estima-se, com isso, que, em 2026, os data centers consumam até 70% de toda a produção mundial de chips de memória. De cada dez chips que saem de uma linha de montagem, sete vão para servidores de IA.
Os resultados da Micron chegam na mesma semana em que a empresa fechou um acordo para fornecer chips de memória e armazenamento à Anthropic, a mesma empresa que, ironicamente, enfrenta tentativas de cópia por adversários que não conseguem acessar o hardware necessário para construir modelos equivalentes por conta própria.
Esta conexão, claramente, não é coincidência: a cadeia de valor da IA opera como um ciclo fechado em que quem produz o silício, quem treina o modelo e quem tenta replicá-lo estão todos disputando o mesmo recurso escasso. E, por enquanto, quem fabrica esse recurso está lucrando mais do que quem o utiliza para criar produtos de consumo.
A Apple Repassa a Conta da Inteligência Artificial
Se a Micron colhe os frutos da escassez, alguém precisa pagar a conta, e esse alguém acaba de ser identificado. A Apple aumentou nesta quinta-feira os preços de praticamente toda a sua linha de computadores, tablets e do óculos Vision Pro, num reajuste global que a própria empresa atribuiu, sem rodeios, à explosão de demanda por chips de memória provocada pela infraestrutura de inteligência artificial. Nas palavras de um porta-voz de Cupertino, a empresa “nunca viu um aumento de preço de componentes tão grande e tão rápido”.
Os números confirmam a declaração. Segundo a consultoria TrendForce, o preço da memória convencional subiu até 98% no primeiro trimestre de 2026 e deve avançar entre 58% e 63% no trimestre corrente. A raiz do problema é estrutural, pois os fabricantes como Samsung, SK Hynix e Micron, os mesmo que estão tendo receitas records, redirecionaram suas fábricas para a memória de alta performance usada em servidores de IA, onde as margens são incomparavelmente maiores.
O que sobra para a indústria de eletrônicos de consumo é uma oferta cada vez menor, a preços cada vez mais altos, que as empresas eventualmente repassam ao consumidor final.
A Apple, nesse cenário, não está sozinha, a Microsoft também elevou preços, mas é o caso mais emblemático porque expõe um paradoxo da era da IA que o consumidor comum ainda não percebeu por completo. A inteligência artificial que promete democratizar o acesso à informação e reduzir custos em dezenas de setores está, neste momento, encarecendo os dispositivos que bilhões de pessoas usam no dia a dia.
O iPhone, o MacBook e o iPad ficam mais caros não porque a Apple decidiu aumentar suas margens, mas porque os componentes que os fazem funcionar estão sendo drenados por uma indústria que, por enquanto, gera valor sobretudo para empresas e desenvolvedores, não para o consumidor médio. É a face menos celebrada da revolução da IA: antes de chegar ao seu bolso como benefício, ela chega como custo.
O Brasil Testa a Bolsa Chinesa
Enquanto a disputa por chips e modelos de IA redesenha a economia da tecnologia, uma movimentação silenciosa no sistema financeiro global pode ter consequências igualmente profundas. O Brasil anunciou planos para realizar sua primeira emissão de títulos de dívida soberana denominados em yuan, a moeda chinesa, numa operação de até 5 bilhões de yuans que, se concretizada, será a maior estreia nesse mercado por um país estrangeiro na história da China. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descreveu a iniciativa como um “teste” para abrir caminho a empresas brasileiras que buscam captar recursos diretamente na segunda maior economia do mundo.
A operação não nasce no vácuo. Empresas brasileiras já vinham solicitando ao governo que abrisse esse canal, tanto para diversificar fontes de financiamento quanto para reduzir a exposição à volatilidade do câmbio entre real e dólar.
E o Brasil não é o primeiro a fazer essa aposta: Portugal, Hungria e Polônia já acessaram o mercado chinês de dívida soberana, e no início deste ano, o próprio governo brasileiro captou 5 bilhões de euros em títulos no mercado europeu. O que muda agora é o parceiro: emitir dívida em yuan é, simultaneamente, um gesto financeiro e uma declaração diplomática.
Em vista disso, fica difícil de ignorar a dimensão geopolítica do movimento. A China utiliza esse tipo de instrumento como peça central de sua estratégia de internacionalização do yuan, uma moeda que, apesar de todo o peso econômico de Pequim, ainda enfrenta controles rígidos de capital e representa uma fração modesta das reservas internacionais globais. Para os mercados emergentes, porém, a proposta é atraente: acessar financiamento em uma moeda cujo emissor é, em muitos casos, seu maior parceiro comercial, sem depender exclusivamente de um sistema financeiro denominado em dólares que, nos últimos anos, demonstrou uma disposição crescente para usar essa posição como instrumento de pressão política.
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Para o Brasil, o cálculo é pragmático. A China já é, há mais de uma década, o maior parceiro comercial do país, e a dependência do dólar para intermediar esse comércio gera custos cambiais e vulnerabilidades que uma relação financeira direta poderia mitigar. Mas a cautela na linguagem do ministro – um “teste”, uma “trajetória” – revela que Brasília sabe que se aproximar demais do sistema financeiro chinês em um momento de rivalidade aberta entre Washington e Pequim carrega riscos diplomáticos proporcionais aos benefícios econômicos. É, portanto, um primeiro passo calculado: suficientemente grande para ser relevante, suficientemente discreto para não ser lido como alinhamento.






