ChatGPT Vira Médico, JPMorgan Aposta na América Latina, Disney Adota Vídeo Vertical e Ford Prepara Carro com IA
Bom dia! Hoje é 9 de janeiro. Neste mesmo dia, em 2001, Steve Jobs subia ao palco da Macworld para apresentar o iTunes. À primeira vista, era apenas um reprodutor de música digital. Na prática, foi o primeiro grande movimento da Apple para transformar o computador em um hub de experiências digitais, conectando hardware, software e conteúdo em um único ecossistema.
Hoje, em 2026, vivemos o desdobramento final dessa visão. A tecnologia não quer mais apenas organizar nossos arquivos ou conteúdos, mas entender intenções, contextos e ambientes. Se em 2001 o marco foi organizar o mundo digital em uma biblioteca, em 2026 o marco é a tecnologia aprender a interagir com a realidade em tempo real.
OpenAI lança ChatGPT Health
A OpenAI anunciou o ChatGPT Health, um espaço dedicado dentro da plataforma para conversas sobre saúde e bem-estar. O movimento formaliza uma realidade que já existia: mais de 230 milhões de pessoas fazem perguntas sobre saúde ao ChatGPT toda semana.
A diferença agora será de estrutura, pois as conversas médicas ficaram isoladas do histórico geral de pesquisa, terão integração a aplicativos como Apple Health, Functions e MyFitnessPal, e estarão dentro da promessa da OpenAI de que esses dados não serão usados para treinar modelos futuros.
Fidji Simo, CEO de Aplicações da empresa, posicionou o produto como uma resposta a problemas crônicos do sistema de saúde: custos elevados, barreiras de acesso e médicos com agendas lotadas.
A proposta é sedutora, mas carrega alguns riscos inerentes à tecnologia. Grandes modelos de linguagem operam por previsão estatística, ou seja, respondem com o que é mais provável, não necessariamente com o que é correto. Assim, alucinações, informações desatualizadas e a ausência de contexto clínico individual são limitações reais que, por ora, não foram solucionadas nos LLMs.
Diante disso, a própria OpenAI reconhece em seus termos de serviço que o ChatGPT “não se destina ao uso no diagnóstico ou tratamento de qualquer condição de saúde”.
Entretanto, o impacto social, acima de tudo, pode ser transformador - especialmente em países com sistemas de saúde sobrecarregados. Um assistente capaz de orientar triagens, explicar exames, sugerir hábitos e acompanhar tratamentos crônicos democratiza (e quem dirá, universaliza, num futuro próximo) o acesso a informação médica de qualidade.
O risco é substituir, em vez de complementar, a relação médico-paciente. O ChatGPT Health funcionará melhor como ponte, não como destino final de diagnósticos. A fronteira entre o empoderamento do paciente e a automedicação irresponsável dependerá menos da tecnologia e mais de como a sociedade aprenderá a usá-la.
O Brasil está no radar de otimismo do JPMorgan?
O JPMorgan, em recentre pronunciamento, comunicou que espera mais um ano de crescimento no mercado de fusões e aquisições na América Latina, após avanço de 34% no valor das transações em 2025, que alcançaram um valor de cerca de US$ 130 bilhões.
Rafael Munoz, head de M&As do banco para a região, destacou que México e Argentina devem ganhar protagonismo em 2026, enquanto o Brasil segue atraente por ser a maior economia regional - mesmo diante das incertezas eleitorais.
“Não é possível ter uma estratégia para a América Latina sem pensar no Brasil”, afirmou o executivo.
A visão otimista, contudo, exige ceticismo calibrado. Afinal, o Brasil enfrenta uma combinação desafiadora: juros elevados, insegurança jurídica persistente e um ciclo eleitoral que historicamente eleva a volatilidade. Munoz reconhece que o cenário-base é de “continuidade” - nem excepcional, nem negativo.
Os setores basilares de infraestrutura, como os de energia, óleo e gás, indústria e consumo devem continuar puxando negócios, mas o ambiente macro limita apostas mais ousadas. A Argentina, por outro lado, surpreende: a recuperação econômica têm atraído investidores dispostos a “fazer apostas maiores”.
Há, porém, cenários relevantes nas entrelinhas desses indicativos que podem nos esclarecer o porque do otimismo frente a região: a explosão global de datacenters e a corrida por energia limpa.
A América Latina reúne uma combinação rara - matriz energética renovável, recursos naturais estratégicos como lítio e cobre, e um mercado consumidor hiperconectado com mais de 400 milhões de usuários de internet. Brasil e Chile, em particular, já atraem investimentos bilionários em infraestrutura digital, posicionando-se como hubs para a economia da inteligência artificial.
Para os investidores globais, a região deixa cada vez mais de ser apenas um destino de valuations descontados e passa a ser peça-chave na cadeia de suprimentos que sustenta a revolução tecnológica - e o Brasil não pode, neste cenário, deixar o cavalo encelado passar sem que usemos esses capitais para nos industrializarmos no setor.
Disney+ adota vídeos verticais e entra na guerra pela atenção
A Disney anunciou durante a CES 2026 que o Disney+ passará a oferecer vídeos no formato vertical, seguindo o padrão popularizado por TikTok e Instagram Reels. A novidade, prevista para chegar ao longo do ano, representa uma inflexão estratégica de uma plataforma que nasceu para oferecer filmes e séries em telas grandes, mas que, agora, adapta seu conteúdo ao formato dominante do consumo móvel.
Erin Teague, VP de Produtos da Disney Entertainment, posicionou a mudança como um tipo de “aprimoramento da experiência”, mas, nas entrelinhas, o movimento revela algo mais profundo: a rendição das plataformas de modelos mais tradicionais à economia da atenção.
Aqui no Brasil, a Globo já lançou “Tudo Por Uma Segunda Chance”, a primeira novela vertical da emissora, distribuída em TikTok, Instagram, Facebook e YouTube antes mesmo de chegar ao Globoplay.
A lógica dos dois players é a mesma: alcançar um tipo de audiência que consome conteúdos em fragmentos de segundos, com o polegar deslizando em busca de dopamina instantânea. A Disney ainda não detalhou se o feed vertical terá conteúdos originais, adaptações do catálogo ou material importado de redes sociais - mas a direção é inequívoca.
A questão que emerge é menos técnica e mais cultural: o que se perde quando narrativas longas são comprimidas em pílulas verticais? Filmes e séries são construídos para imersão, arcos dramáticos e atenção sustentada. O formato vertical privilegia o impacto imediato, com cortes rápidos e gratificação instantânea.
Neste movimento, a Disney não está apenas mudando a forma do conteúdo, mas está adaptando sua linguagem a um público que desaprendeu a esperar. Para as gerações que cresceram no TikTok, isso é natural. Para a arte de contar histórias, pode ser uma perda silenciosa.
Ford apresenta seu assistente de IA
A Ford revelou na CES 2026 seu assistente de inteligência artificial, que estreará no aplicativo da montadora no início deste ano e será integrado nativamente aos veículos em 2027. Hospedado no Google Cloud e construído com LLMs prontos para uso, o assistente terá acesso profundo a informações específicas do veículo - desde perguntas genéricas como “quantos sacos de cimento minha caçamba suporta?” até dados em tempo real, como informações vida útil do óleo.
A empresa também apresentou a nova geração do BlueCruise, sistema de assistência ao motorista que será 30% mais barato de produzir e promete a tão falada direção sem as mãos no volante até 2028.
O anúncio demonstra a Ford é, agora, mais um competidor em uma corrida que já conta com concorrentes muito avançados. A Rivian lançou recentemente um assistente capaz de enviar mensagens, lidar com navegação complexa e controlar temperatura. A Tesla integrou o chatbot Grok aos seus veículos, usado para gerar roteiros turísticos instantâneos. Já Ford, por sua vez, tem um ano para refinar sua solução antes da integração nativa - tempo suficiente para aprender com os erros alheios, mas também para ficar para trás se a execução falhar.
Sua promessa mais ambiciosa, com certeza, é o BlueCruise com a promessa de uma “autonomia ponto a ponto” prevista para 2028, similar ao Full Self-Driving da Tesla. Mas aqui cabe cautela: todos esses sistemas ainda exigem que motoristas estejam prontos para assumir o controle a qualquer momento. A expressão “autônomo” é, por enquanto, mais marketing do que realidade técnica. O verdadeiro teste não será a tecnologia em si, mas a confiança que consumidores e reguladores depositarão nela. A Ford aposta que, em dois anos, essa confiança estará madura - tanto pelo avanço da própria tecnologia, tanto pela confiança que a marca, por todo seu tradicionalismo, já tem com o mercado.









