Cérebro Chinês nos Robôs, Wearables são o Futuro e CEOs se Sentam com Presidentes
Bom dia! Hoje é 18 de junho. Neste mesmo dia, em 1983, a física e astronauta Sally Ride embarcava no ônibus espacial Challenger e se tornava a primeira mulher americana a chegar ao espaço, aos 32 anos, rompendo uma barreira que já não era técnica, mas cultural.
Quarenta e três anos depois, as barreiras que se rompem são de outra natureza, mas obedecem à mesma lógica: não basta construir a máquina, é preciso mudar quem tem permissão para operá-la e quem decide para onde ela vai. A China quer dar cérebros aos seus robôs, a Qualcomm quer vestir inteligência artificial no seu corpo, a Snap aposta que seus óculos substituirão a tela do celular, e os criadores da IA mais poderosa do planeta se sentam à mesa onde antes só havia chefes de Estado.
Sally Ride provou que o espaço não pertencia a quem sempre esteve lá. As notícias desta quinta-feira sugerem que a mesma disputa está em curso, mas agora, com constelações muito mais complexas.
A China Fabrica Cérebros para seus Robôs
Imagine um exército de máquinas com corpo, mas sem mente. É exatamente esse o dilema que a indústria chinesa de robótica enfrenta, e que a Alibaba acaba de tentar resolver. A gigante de Hangzhou anunciou, em Pequim, seus primeiros modelos de inteligência artificial desenvolvidos especificamente para aplicação em robôs, um movimento que marca uma mudança estratégica significativa, onde a China não quer apenas fabricar humanoides em escala, algo que já faz melhor do que qualquer outro país. Ela quer dar a essas máquinas a capacidade de pensar, agir e decidir por conta própria.
O anúncio ocorre em um momento que redefine o mercado chinês de IA. As grandes empresas do país estão migrando, com uma velocidade impressionante, de chatbots conversacionais para agentes autônomos, sistemas projetados não para responder perguntas, mas para executar tarefas complexas no mundo real. A lógica econômica por trás dessa transição é clara: os chatbots geram engajamento, mas agentes autônomos geram produtividade. E produtividade, na escala industrial chinesa, significa reconfigurar fábricas inteiras, cadeias logísticas e até serviços urbanos.
Como já abordamos em edições anteriores, robôs chineses já patrulham ruas de Pequim para controlar o fluxo turístico e de trânsito, e a Unitree, fabricante de humanoides, fornece unidades operacionais para o aeroporto de Haneda, no Japão, em um caso que revelou que até aliados estratégicos dos Estados Unidos recorrem à tecnologia chinesa quando o custo-benefício fala mais alto.
O que a Alibaba está construindo, portanto, é a peça que faltava na arquitetura robótica mais ambiciosa do planeta. A China já possui mais de 2 milhões de robôs industriais em operação, um número superior ao resto do mundo inteiro somado, abriga mais de 140 empresas focadas em robótica humanoide e fabrica localmente 95% dos componentes necessários. O que faltava era o cérebro: modelos de IA nativos, treinados para as especificidades do mundo físico, capazes de transformar autômatos em agentes.
Com a Alibaba, a Baidu e a Tencent disputando essa fronteira internamente, a China caminha para fechar o circuito completo da robótica autônoma, do silício ao software, sem depender de nenhuma tecnologia ocidental. Assim, para empresas como Boston Dynamics, Tesla e seus pares, o recado é direto: a vantagem competitiva de ter modelos mais sofisticados se esvazia rapidamente quando o concorrente controla toda a cadeia.
A Qualcomm quer ser o Chip do que Substituirá seu Smartphone
Enquanto o mundo debate qual modelo de IA será o mais inteligente, a Qualcomm faz uma pergunta diferente, e talvez mais relevante: onde essa inteligência vai morar? Cristiano Amon, CEO brasileiro da empresa, deixou claro que a próxima fronteira não está nos data centers gigantescos que hoje sustentam a hegemonia da Nvidia, mas nos dispositivos que você veste, pendura e carrega junto ao corpo. Nesse sentido, a companhia anunciou que está desenvolvendo chips para mais de 40 categorias de wearables com IA, desde óculos inteligentes e fones com câmeras até broches, bijuterias e relógios.
A aposta parece ousada, mas segue uma lógica que vem ganhando força em toda a indústria: o conceito de computação na ponta, ou edge computing. Hoje, a imensa maioria do processamento de IA acontece na nuvem, em servidores distantes que exigem conexão constante e geram uma certa latência que, em determinados contextos, é perceptível. A tese da Qualcomm é que uma parcela crescente dessa inteligência migrará para o próprio dispositivo, executando tarefas rápidas e contextuais localmente enquanto a nuvem cuida das operações pesadas.
Isso que dizer que, traduções em tempo real, identificação de objetos, respostas instantâneas e comandos de voz, tudo isso funcionará sem depender de um sinal de internet. Assim, para viabilizar essa visão, a empresa lançou duas plataformas: o Snapdragon Reality Elite, voltado para óculos de realidade mista, e o START, um kit modular para acelerar a criação de dispositivos de IA compactos, começando justamente pelos óculos inteligentes.
A posição da Qualcomm nessa disputa é peculiar, porque a empresa carrega uma vantagem forjada em décadas de telefonia móvel: seus processadores foram desenhados, desde a origem, para operar com eficiência energética extrema e com baterias minúsculas. Enquanto a Nvidia domina o mercado de chips com máquinas que consomem quilowatts em salas refrigeradas, a Qualcomm sabe fazer um silício que roda com miliwatts no seu pulso. É uma competência que, no paradigma atual dos data centers, parecia secundária. No paradigma dos wearables com IA, torna-se central.
E a empresa não quer abrir mão de nenhum dos lados, haja vista que, recentemente, anunciou a marca Dragonfly para disputar o mercado de processadores para data centers, sinalizando que sua ambição é estar presente tanto na nuvem quanto no corpo. Se a tese estiver correta, o smartphone como o conhecemos pode estar vivendo seus últimos anos como dispositivo dominante, substituído por um ecossistema de objetos inteligentes distribuídos pelo corpo e pelo ambiente. E a Qualcomm quer ser o silício que alimenta cada um deles.
A Snap já deu a Primeira Cartada
Ao passo que a Qualcomm desenha os chips para o futuro pós-smartphone, a Snap decidiu não esperar, e lançou seus óculos de realidade aumentada, os Specs, com uma pré-venda a US$ 2.195 e entregas previstas para dezembro. O dispositivo não é um protótipo de laboratório nem um conceito para investidores. É um produto de consumo, com armação preta discreta, sem necessidade de bateria externa ou controle por gestos, e equipado com dois processadores Snapdragon da própria Qualcomm. Os Specs tem capacidade para projetar conteúdo digital diretamente sobre a visão do mundo real do usuário, permitindo que este possa trabalhar, assistir vídeos, navegar na internet, jogar ou medir objetos, tudo sem tirar um telefone do bolso.
O movimento é calculado para uma tentativa de ocupar um espaço que nenhum concorrente dominou com sucesso. O Vision Pro da Apple, lançado com ambições grandiosas, esbarrou em seu peso excessivo, um preço exorbitante e, consequentemente, uma adoção limitada. Os Ray-Ban da Meta, por outro lado, conquistaram o mercado com mais de 7 milhões de pares vendidos apenas em 2025 e uma participação de 73% no segmento, mas oferecem funcionalidades limitadas, sem realidade aumentada completa.
Com isso, a Snap posiciona os Specs exatamente entre esses dois mundo: seus óculos mais leves que o Vision Pro, mais capazes que os Ray-Ban da Meta, e mais baratos que o headset da Apple. A estratégia não é vencer a Meta em volume, mas provar que existe uma demanda para um dispositivo que faz mais do que tirar fotos e menos do que isolar o usuário do mundo.
O que está em jogo, para além do produto em si, é uma disputa pela próxima grande plataforma de computação pessoal. Como sabemos, Mark Zuckerberg aposta que wearables leves e estilosos se tornarão a interface dominante da próxima década, substituindo parcialmente o smartphone como ponto de acesso ao mundo digital. Sob essa perspectiva, que não é particular do CEO da Meta, a Apple se prepara com seus próprios óculos e broches com IA; o Google confirmou seus óculos com Gemini integrado para este ano; e a Snap, que o mercado frequentemente subestima, acabar de entrar na corrida com um produto real, disponível para compra, enquanto concorrentes maiores ainda operam no campo das promessas.
Por fim, a pergunta de fundo permanece a mesma que já colocamos quando analisamos os wearables da Apple: esses dispositivos só funcionam se a IA embarcada for boa o suficiente para justificar o gesto de colocá-los no rosto. Sem um assistente verdadeiramente útil, óculos inteligentes são apenas óculos caros.
CEOs no G7: A Política já não é mais Coisa de Político
Há uma cena que resume o estado atual da geopolítica tecnológica melhor do que qualquer relatório: Sam Altman, Dario Amodei e Demis Hassabis, os três homens que controlam os modelos de inteligência artificial mais poderosos do planeta, sentados à mesa do G7 em Évian, na França, ao lado dos chefes de Estado das sete maiores economias do mundo. Não como observadores, não como palestrantes convidados para um painel lateral, mas como interlocutores diretos de líderes que, sozinhos, já não conseguem tomar decisões sobre o tema mais disruptivo do século.
O convite desses empresários não foi algo protocolar, pelo contrário, foi um reconhecimento tácito de que o poder mudou de endereço. Isso quer dizer que, para assumir compromissos críveis sobre inteligência artificial, regulação de segurança cibernética, proteção de crianças na internet e soberania tecnológica, os presidentes e primeiros-ministros agora precisam da cooperação, senão do aval, de um punhado de executivos do setor privado que de fato constroem a tecnologia.
Nesse prisma, a OpenAI já sinalizou que espera sair da cúpula com um conjunto de “compromissos voluntários” que se tornem um padrão global de fato, uma formulação que, lida com atenção, sugere que são as empresas que estão propondo as regras, e não os Estados que as impõem. Como analisamos em março, quando Zuckerberg, Jensen Huang, Brin e Ellison foram nomeados para o conselho de tecnologia de Trump, a fronteira entre interesse público e interesse corporativo vem se dissolvendo de forma acelerada, e sua presença no G7 globaliza essa dinâmica.
O backgroud que circunta estas relações torna a cena ainda mais complexa. A Anthropic, de Amodei, segue em tensas negociações com a administração Trump após Washington impor controles de exportação sobre seus modelos Fable 5 e Mythos 5 por razões de segurança nacional. O lançamento do Mythos, que a própria Anthropic classificou como o primeiro modelo capaz de comprometer empresas da Fortune 100 se liberado sem controle, foi descrito por fontes próximas ao Pentágono como um “ponto de inflexão” que levou a Casa Branca a considerar seriamente a regulação da IA.
E, em paralelo, vários países do G7 já haviam mencionado a necessidade de investimento em IA soberana, mas sempre partindo do pressuposto de que teriam acesso à infraestrutura americana. Agora, contudo, os Estados Unidos sinalizaram uma disposição para restringir esse acesso até para aliados de tratado, o que transforma a mesa do G7 em um espaço onde os anfitriões dependem dos convidados e os convidados negociam sob a sombra de seus próprios governos.
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O que essa configuração revela, em última instância, é que estamos diante de uma nova arquitetura de poder. Não se trata mais de lobbying, de influência indireta ou de doações de campanha. É presença institucional, com assento à mesa, com voz na formulação de padrões que afetarão bilhões de pessoas. Sally Ride precisou provar que pertencia ao espaço onde estava. Altman, Amodei e Hassabis não precisam provar nada: os governos é que precisam deles. E essa inversão, mais do que qualquer benchmark de modelo ou recorde de receita, é o verdadeiro indicador de onde reside o poder no século XXI.






