Anúncios no ChatGPT: o dinheiro entrou na conversa
A OpenAI está começando a flertar com um tabu: anúncios dentro do ChatGPT. A própria empresa já descreveu o desenho do teste: publicidade no rodapé das respostas, claramente rotulada e separada do conteúdo “orgânico”, inicialmente para adultos logados nos EUA nos planos Free e Go, com opção de “dispensar” o anúncio e entender por que ele apareceu. E, pelo menos na promessa oficial, o anúncio não influencia a resposta.
Do lado da OpenAI, a lógica é quase inevitável. Modelos melhores exigem mais computação, mais energia, mais infraestrutura, mais gente, mais tudo. A receita por assinatura e pelo uso de API já é relevante, mas a matemática do “produto gratuito em escala global” é brutal. Anúncios viram um mecanismo para financiar expansão e, principalmente, subsidiar acesso para quem não paga, exatamente como aconteceu com a internet inteira.
O problema é o outro lado da moeda: a experiência do chat é íntima. Não é uma página de resultados. É uma conversa. E conversa cria confiança, proximidade, vulnerabilidade. Quando você injeta publicidade nesse ambiente, você reabre uma ferida antiga: a sensação de que, em algum momento, o “melhor conselho” pode virar “o melhor patrocinador”. Não por maldade explícita, mas pelo simples ruído mental que isso cria. Tanto que o tema já acendeu alerta político e regulatório, justamente por risco de confusão entre conteúdo e patrocínio, além de preocupações com privacidade e público jovem.
E aqui vem a ironia: o fantasma do Google volta, só que em um novo palco. O modelo clássico de links patrocinados sempre funcionou porque o usuário aceitava a troca: “eu busco, eu escolho, eu clico”. Só que a era dos “resumos por IA” muda o comportamento, reduz cliques e empurra a decisão para dentro da própria resposta. O Google, inclusive, já está colocando anúncios dentro de experiências generativas como o AI Overviews, o que prova que o dinheiro inevitavelmente tenta seguir a atenção, mesmo quando a interface muda.
No fim, a discussão não é “ter anúncios ou não”. É onde e com quais garantias. Se o anúncio ficar visualmente óbvio, periférico, com controles reais, sem usar conversa sensível como matéria-prima e sem contaminar ranking e recomendação, ele pode virar um pedágio tolerável para manter o acesso amplo. Mas se a indústria cair na tentação de transformar diálogo em funil, a OpenAI corre o risco de destruir seu ativo mais raro: confiança. E, num mundo em que a compra está migrando da busca para a conversa, confiança não é detalhe. É o próprio produto.



