Algoritmos x Rodas: o que dá mais dinheiro?
A BYD venceu a Tesla. Pelo menos no campo mais concreto e visível da indústria automotiva: carros vendidos. Enquanto a Tesla, de Elon Musk, viu suas vendas globais recuarem quase 9% em 2025, a chinesa BYD acelerou forte. Foram 2,26 milhões de carros 100% elétricos entregues no mundo, contra 1,64 milhão da rival americana. Um número que, por si só, já simboliza uma virada de jogo importante no setor.
Mas a diferença real aparece quando se amplia o enquadramento. A BYD não é apenas uma montadora de elétricos. Ela é uma empresa de eletrificação. Ao somar veículos elétricos e híbridos, a companhia chinesa chegou a impressionantes 4,6 milhões de carros vendidos em 2025. É escala industrial, domínio de cadeia produtiva e uma leitura muito pragmática de mercado: nem todo consumidor está pronto para o 100% elétrico, mas quase todos querem alguma forma de transição.
Do outro lado, a Tesla parece estar vivendo um momento de escolha estratégica. A queda nas vendas acontece exatamente quando Elon Musk deixa cada vez mais claro que enxerga o futuro da companhia menos nas rodas e mais nos algoritmos. Inteligência artificial, robôs humanoides, sistemas autônomos e software passaram a ocupar o centro da narrativa. O carro, que um dia foi o produto revolucionário, começa a parecer apenas um meio para chegar a algo maior.
Curiosamente, o mercado não entrou em pânico. Nos últimos 12 meses, as ações da Tesla caíram cerca de 5%, um movimento relativamente contido diante da retração nas vendas. O recado implícito é claro: investidores estão menos interessados em quantos carros saem da fábrica e mais atentos ao quanto de inteligência pode sair do código. Na lógica atual do mercado, software escala melhor do que hardware, margens são maiores e o potencial de dominância é global.
Essa é a grande tensão do momento. Carros ainda são negócios pesados, intensivos em capital, logística e competição feroz por preço. Algoritmos, por outro lado, prometem margens altas, recorrência e efeitos de rede. A BYD escolheu vencer o presente, dominando a transição energética com eficiência industrial e volume. A Tesla parece disposta a sacrificar parte desse presente para tentar capturar um futuro onde carros são apenas plataformas para inteligência artificial sobre rodas.
No fim, a pergunta do título não é retórica. Algoritmos dão mais dinheiro, sim, quando funcionam. Mas rodas ainda pagam as contas, geram caixa e sustentam a transição. A BYD aposta na execução impecável do agora. A Tesla aposta que o amanhã será tão grande que compensará qualquer tropeço no caminho. O mercado, por enquanto, observa. Porque mais do que uma disputa entre montadoras, essa é uma disputa entre modelos mentais de criação de valor.



