Alexa Tenta Renascer, Nvidia Acalma o Mercado e a Guerra pelo Trono dos Chatbots
Bom dia! Hoje é 5 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1985, Steve Jobs deixava a Apple pela primeira vez, após conflitos internos que pareciam selar seu destino como empresário fracassado.
Doze anos depois, ele retornaria para transformar a companhia na mais valiosa do mundo. A história de Jobs nos lembra que, em tecnologia, derrotas temporárias frequentemente precedem reinvenções decisivas, e é exatamente esse o movimento que a Amazon tenta executar agora com sua assistente digital.
Amazon Entra de Vez no Jogo com a Alexa+
A Amazon oficializou o lançamento da Alexa+, ou Alexa Plus, uma reconstrução completa de sua assistente digital (uma das pioneiras neste mercado, lançada há 11 anos atrás), alimentada por modelos de linguagem da Amazon Nova e da Anthropic.
O que antes se limitava a comandos simples, como “Alexa, toque música”, “Alexa, acenda a luz”, evoluiu para uma interface conversacional e contextual, capaz de gerenciar calendários familiares, criar rotinas domésticas por voz e, crucialmente, executar transações no mundo real: reservas em restaurantes, chamadas de Uber, compra de ingressos, contratação de serviços e, claro, compras na Amazon.
A assistente oficialmente deixou de ser um controle remoto glorificado para se tornar um verdadeiro agente digital, competindo diretamente com ChatGPT e Gemini.
O ponto mais estratégico dessa reestruturação está na arquitetura “agnóstica de modelos” presentes no LLM da Amazon. Ao permitir que a Alexa+ acesse diferentes fornecedores de IA conforme a tarefa solicitada, a Amazon evita a dependência de um único parceiro e preserva flexibilidade para incorporar avanços futuros. E é aqui que surge a possibilidade mais explosiva: nos bastidores do mercado, estão em curso negociações para um investimento estimado em até US$ 50 bilhões na OpenAI por parte da empresa de Jeff Bezos, que, agora, não quer apenas competir, mas ocupar múltiplas posições no tabuleiro da IA.
Se concretizado, o acordo criaria uma simbiose inédita, com a OpenAI fornecendo tecnologia e inteligência para a Alexa, enquanto, como troca, utiliza chips e capacidade computacional da AWS, ampliando seu alcance para além da Microsoft.
Esse movimento apenas sinaliza mais uma vez algo mais amplo que está acontecendo no mercado de assistentes digitais. Vejamos: recentemente, a Apple fechou uma parceria com Google para integrar o Gemini à Siri (do iPhone) e, agora, a Amazon começa a flertar com a OpenAI para uma possível integração.
Isso significa que a era dos assistentes proprietários e isolados vem, aos poucos, cedendo espaço para ecossistemas híbridos, onde a vantagem competitiva não reside exclusivamente no modelo de linguagem, mas na sua integração com hardwares (como no iPhone), serviços e dados proprietários (como na Alexa). Além disso, os movimentos também nos mostram que, para estes players mais atrasados, o timing de competir no front, ou seja, no desenvolvimento de seu próprio modelo, já passou.
Jensen Huang Defende o Software Frente à IA
Enquanto a Amazon explora novos caminhos no mundo dos assistentes, a onda de vendas que atingiu ações globais de software nas últimas semanas trouxe à tona um temor crescente: a inteligência artificial tornará obsoletas as ferramentas tradicionais?
Jensen Huang, CEO da Nvidia, respondeu com uma negativa enfática, classificando a ideia como “a coisa mais ilógica do mundo”. Seu argumento central é elegante em sua simplicidade: agentes de IA são inteligentes e “acomodados”, assim como nós humanos, e preferem utilizar ferramentas (ou seja, os softwares) já existentes em vez de recriá-las do zero. A evolução natural da inteligência artificial, portanto, não é a substituição do software, mas sua instrumentalização.
A posição de Huang carrega um certo peso estratégico e não deve ser lida puramente como uma análise técnica neutra, afinal, a Nvidia depende de um ecossistema de software robusto para que seus chips de IA sejam úteis.
Ainda assim, o argumento possui fundamento estrutural sólido. Os avanços mais recentes em IA - com agentes que navegam na web, executam código e manipulam planilhas - operam precisamente através de ferramentas já existentes, não apesar delas. O que muda é a interface: em vez de humanos operando software manualmente, agentes de IA assumem a execução, mas o substrato permanece o mesmo.
Portanto, o sensato é entendermos que setor de software não será extinto, mas sofrerá uma reorganização profunda. Diante disso, ferramentas que servem como infraestrutura básica para operações, como sistemas de bancos de dados, sistemas operacionais e plataformas de desenvolvimento e coding, tendem, na realidade, a se valorizar como utilidades ferramentais essenciais para agentes de IA.
Por outro lado, softwares cuja proposta de valor reside em uma interface direta com usuários humanos, enfrentarão um risco existencial, pois, se um agente pode executar a tarefa diretamente, tornando o humano obsoleto no processo, a camada de interface perde relevância.
Ao fim, a transformação é profunda, mas não apocalíptica. A economia digital seguirá sendo construída sobre plataformas, só que, agora, mais inteligentes.
Quem Dominará o Trono da IA?
Se a defesa de Huang acalma os temores sobre o possível fim do software, ela também ilumina uma verdade incômoda para quem apostava em um único dominador do mercado de IA, pois esta batalha está longe de ser decidida.
Durante os primeiros meses do boom dos chatbots, a narrativa predominante tratou o ChatGPT como sinônimo de inteligência artificial conversacional - uma hegemonia tão absoluta que parecia irreversível. Os dados mais recentes, no entanto, contam uma história diferente. A OpenAI viu sua participação de mercado cair de 86,7% para 64,5%, enquanto o Gemini, do Google, saltou de modestos 5,7% para expressivos 21,5% em apenas doze meses.
Na outra ponta, DeepSeek, Grok, Perplexity e Claude disputam nichos com menos de 4% cada, e o Copilot da Microsoft (apesar dos bilhões investidos) detém apenas 1%, um dado que ilustra como presença corporativa não se traduz automaticamente em adoção pelo usuário final.
Esta ascensão do Gemini não reflete necessariamente uma deterioração do ChatGPT, mas expõe a força estrutural do Google, com seu poder de integração com o maior motor de busca do mundo, acesso a dados em tempo real e presença nativa no Android. Podemos entender o poder dessa integração com o exemplo de um usuário médio de internet, afinal, para este, a fricção de alternar entre plataformas diminuiu muito quando a IA se tornou embutida nas ferramentas que ele já utiliza em seu dia a dia. É uma vantagem distributiva, não necessariamente tecnológica.
A OpenAI, consciente dessa vulnerabilidade, vem acelerando parcerias com Apple e, agora, potencialmente Amazon - movimentos que buscam compensar a ausência de um ecossistema proprietário de hardware e serviços.
A questão de fundo, contudo, transcende rankings de participação. O mercado de IA conversacional pode não convergir para um vencedor único, mas fragmentar-se em domínios especializados: um modelo para busca, outro para código, outro para criação de conteúdo, outro para automação doméstica. Nesse cenário, a pergunta “qual IA você usa?” se torna tão anacrônica quanto perguntar “qual aplicativo você usa?”. A resposta será: todos, conforme o contexto.
A batalha do agora, então, desloca-se da supremacia tecnológica para a integração ecossistêmica - um jogo onde a Google e a Amazon (antes em desvantagem) partem com vantagens estruturais que a OpenAI e a Anthropic, por exemplo, precisarão neutralizar através de alianças cada vez mais amplas.
O futuro provavelmente será híbrido, com múltiplos agentes competindo por atenção e dados pessoais.







