Agora, Todo Mundo Constrói seu Site
O vibe coding não é uma novidade de produtividade para programadores. É o fim da programação como pré-requisito para empreender na economia digital.
Por muito tempo, a economia digital operou sobre uma barreira que, por tão naturalizada que era, deixou de ser percebida como barreira: para transformar uma ideia em produto digital, era preciso saber programar ou pagar alguém que soubesse. Quem tinha a ideia para um aplicativo, uma plataforma, uma ferramenta que resolvesse um problema real dependia, invariavelmente, de um intermediário técnico para traduzi-la em um tipo de código funcional. O processo levava meses, custava dezenas ou centenas de milhares de reais, e carregava consigo o risco de que a tradução entre o que o empreendedor imaginava e o que o programador construía produzisse algo diferente do pretendido. A programação era, nesse arranjo, o pedágio obrigatório entre a ideia e o mercado, e quem não conseguia pagá-lo ficava, por definição, do lado de fora da economia digital.
Esse pedágio, contudo, está sendo eliminado – não aos poucos, mas muito rápido – , com uma velocidade que, mesmo para quem acompanha o setor de perto, fica difícil de processar. A Lovable, uma startup sueca que permite a qualquer pessoa construir software por meio de comandos em linguagem natural, anunciou ontem que levantou 400 milhões de dólares em uma rodada de financiamento que a avaliou em 13,3 bilhões de dólares, o dobro do valor registrado em dezembro, apenas sete meses antes. Desde o seu lançamento, em novembro de 2024, menos de dois anos atrás, usuários criaram mais de sessenta milhões de projetos na plataforma, e os aplicativos construídos por meio dela atraem, coletivamente, mais de 900 milhões de visitas por mês.
A receita recorrente anual da empresa quase triplicou em relação aos 200 milhões de dólares do fim do ano passado, e a projeção é de 600 milhões de dólares até o final de agosto. Empresas como Nvidia, Deutsche Telekom e Adidas estão entre as que já desenvolvem projetos internos usando a ferramenta. São números que, por sua escala e pela velocidade com que se formaram, indicam que o fenômeno ultrapassou, de forma definitiva, a categoria de curiosidade tecnológica e se instalou como transformação real do mercado de software. Afinal, quem de nós nunca criou um site com IA, não é? Se você não criou, recomendo que o faça, nem que seja para descobrir a ferramenta.
O que a Lovable oferece, e o que um número crescente de plataformas similares também oferece, é algo que a indústria passou a chamar de “vibe coding”, ou seja, a possibilidade de construir um aplicativo funcional descrevendo, em linguagem natural, o que você quer que ele faça. Em vez de escrever linhas de código em Python, JavaScript ou qualquer outra linguagem de programação, o usuário diz, por exemplo, “quero uma página onde meus clientes possam agendar consultas, escolher horários disponíveis, pagar online e receber confirmação por e-mail”, e o sistema gera o aplicativo completo, com interface, lógica de funcionamento e integração de pagamento, em minutos. A qualidade do resultado varia conforme a complexidade do pedido, mas para uma parcela cada vez maior de casos de uso – nisso eu destaco sites de negócios locais, ferramentas internas de empresas, protótipos de produtos, lojas online e portais de atendimento – o resultado é funcional, publicável e suficiente para operar no mundo real.
O que está acontecendo com o advento desse novo horizonte de possibilidades que a IA nos proporciona é uma mudança na natureza do gargalo. Durante décadas, o gargalo da economia digital foi técnico: havia mais ideias do que pessoas capazes de construí-las, e essa escassez de desenvolvedores inflacionou salários, prolongou ciclos de desenvolvimento e concentrou o poder de criação de produtos digitais em um grupo relativamente pequeno de profissionais e empresas com recursos para contratá-los. O vibe coding dissolve esse gargalo ao transferir a capacidade de construção de software de uma elite técnica para qualquer pessoa que consiga descrever o que quer, e quando essa transferência acontece, o gargalo da economia digital muda de lugar, deixando de ser sobre “quem sabe construir?” para ser “o que vale a pena construir?”. A competição, nesse novo cenário, não se dá mais no nível da capacidade técnica, mas no nível da ideia, do entendimento do mercado, da capacidade de identificar um problema real e articular uma solução que pessoas estejam dispostas a usar e a pagar.
Essa democratização, contudo, carrega consigo uma implicação que eu aposto que muitos de nós – ou, ao menos, quem está familiarizado com o assunto – já percebemos, mesmo sem saber nomear: a proliferação de sites e aplicativos com uma estética inconfundivelmente gerada por IA. Mesmos padrões de design, mesmas paletas de cores, mesmas estruturas de página, mesmos ícones, mesma tipografia, aquela aparência limpa e funcional que é, ao mesmo tempo, perfeitamente competente e estranhamente genérica. É, no campo do software, a mesma dinâmica de homogeneização que a IA está fazendo com a linguagem escrita: quando milhões de pessoas usam a mesma ferramenta para construir sites, os sites começam a se parecer, da mesma forma que quando milhões de pessoas usam o mesmo modelo de linguagem para escrever, os textos começam a soar igual. O vibe coding democratiza sim a capacidade de construir, mas ao fazê-lo por meio de modelos que tendem a produzir uma estética média, ele também nivela a aparência de grande parte da internet a um padrão que é funcional, mas indistinto.
Essa tensão entre democratização e padronização é real, mas não deve obscurecer a magnitude do que está acontecendo, porque o impacto líquido da mudança é imensamente positivo para a economia como um todo. Quando a impressão em massa foi inventada, os puristas lamentaram a perda da caligrafia artesanal dos manuscritos, mas o resultado foi que milhões de pessoas ganharam acesso a livros que antes eram privilégio de monastérios. Quando os processadores de texto substituíram as máquinas de escrever, lamentou-se a perda do ofício datilográfico, mas o resultado foi que qualquer pessoa com um computador podia produzir documentos com qualidade profissional. O vibe coding está fazendo com o software o que a impressão fez com o texto: removendo a barreira técnica que separava quem tinha ideias de quem podia executá-las, e transformando a criação de produtos digitais de um ofício especializado em uma capacidade universal.
Para os programadores profissionais, a mudança não é necessariamente uma ameaça existencial, mas é uma redefinição do valor que eles oferecem à sociedade, exigindo deles uma adaptação à seleção natural da IA, no novo darwinismo profissional. Se construir um aplicativo básico deixa de exigir um programador, o programador que se diferencia passa a ser aquele que constrói o que o vibe coding não consegue: seja sistemas complexos, arquiteturas de alta performance, sistemas de segurança (algo que a IA ainda não faz bem) e tudo aquilo que exige não apenas a capacidade de descrever o que se quer, mas o conhecimento técnico para entender por que certas soluções funcionam e outras quebram sob pressão. O programador que antes fazia sites e aplicativos simples por encomenda enfrenta a mesma pressão que qualquer profissional cujas tarefas a IA pode executar com qualidade suficiente. O programador que opera no nível de engenharia de sistemas, porém, se torna, nesse novo cenário, ainda mais valioso, porque a explosão de software gerado por vibe coding cria uma demanda proporcional por profissionais capazes de auditar, escalar e proteger esse software quando ele precisa operar em ambientes críticos.
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Para quem lidera negócios e observa esse fenômeno, pode-se afirmar que a vantagem de ter uma equipe de desenvolvimento interna, que durante anos foi um diferencial competitivo para empresas que podiam pagá-la, está sendo rapidamente erodida pela capacidade que qualquer concorrente, incluindo empreendedores individuais sem formação técnica, agora possui de construir produtos digitais funcionais em horas. Isso significa que a competição se desloca do campo da execução técnica para o campo da estratégia, do entendimento do cliente e da capacidade de iterar rapidamente sobre o que o mercado responde. A ideia sempre foi a parte mais importante de qualquer negócio. O que muda é que, pela primeira vez, a ideia pode ir ao mercado sem pedir licença à engenharia. E quando a barreira entre pensar um produto e lançá-lo se reduz a uma conversa com uma IA, o número de pessoas capazes de empreender digitalmente se multiplica por uma ordem de magnitude que ainda estamos começando a compreender.
Sessenta milhões de projetos criados em menos de dois anos, por uma única plataforma, em um mercado que conta com dezenas de concorrentes oferecendo capacidades semelhantes. O número diz mais sobre o momento do que qualquer análise de mercado, porque ele representa sessenta milhões de vezes em que alguém teve uma ideia e, em vez de precisar encontrar um programador, encontrar dinheiro e esperar meses, simplesmente descreveu o que queria e viu o resultado aparecer na tela. Nem todos esses projetos se tornarão negócios. A maioria, provavelmente, não passará de experimento. Mas entre sessenta milhões de tentativas, a quantidade de negócios reais, de problemas resolvidos e de empregos criados por pessoas que, até ontem, não tinham como transformar sua ideia em produto é, por qualquer medida, transformadora. A programação não morreu – claro que não. Mas deixou de ser o portão que decide quem entra na economia digital. E quando o portão abre, o que acontece do outro lado costuma ser muito maior do que qualquer um dos porteiros previa.




