A Siri Renasceu, Pfizer Quer Te Emagrecer, Superapp GPT e IA Caça Craques
Bom dia! Hoje é 9 de junho. Neste mesmo dia, em 1986, o Pittsburgh Supercomputer Center era inaugurado para dar suporte à NSFNET, a rede que conectou os cinco maiores centros de supercomputação dos Estados Unidos e que se tornaria, em poucos anos, a espinha dorsal daquilo que conhecemos hoje como internet.
Quarenta anos depois, a infraestrutura que começou como um experimento acadêmico entre laboratórios distantes é o substrato invisível sobre o qual se erguem assistentes de inteligência artificial, plataformas de saúde global e sistemas de análise esportiva que operam em tempo real. O que em 1986 era um fio entre computadores é, hoje, o tecido nervoso de uma economia que não distingue mais entre o digital e o mundo físico. E, como as notícias de hoje demonstram, quem domina a interface entre essas duas camadas detém o poder que definirá a próxima década.
A Siri Que a Apple Devia ao Mundo
Dois anos após prometer uma Siri verdadeiramente inteligente e não conseguir entregá-la, a Apple finalmente revelou sua assistente virtual reformulada na WWDC 2026. A “Siri AI”, como passou a ser chamada, não é mais uma interface de comandos de voz disfarçada de inteligência: agora trata-se de um chatbot conversacional completo, com aplicativo próprio, capacidade de acessar dados do dispositivo, responder com base no conteúdo exibido na tela e integrar informações de e-mails, calendários e contatos para executar tarefas complexas. A assistente ganhou uma nova animação na Ilha Dinâmica, uma nova função de escrita assistida que reproduz o estilo de comunicação do usuário com cada interlocutor específico, e uma voz redesenhada com uma nova cadência e expressividade personalizadas. Em resumo, a Siri deixou de ser um controle remoto glorificado e passou a habitar o mesmo território funcional de ChatGPT, Claude e Gemini.
O que torna essa movimentação estrategicamente única, porém, não é o que a Siri agora faz, mas onde ela faz. Como já vínhamos analisando por aqui, nenhum dos chatbots concorrentes mora dentro do dispositivo que o usuário carrega no bolso, lê seus e-mails, conhece sua agenda e controla seus aplicativos. A Apple chegou atrasada na corrida da IA, sem dúvida, e acumulou quase uma década e meia de promessas não cumpridas com a Siri, ao ponto de ter concordado em pagar US$ 250 milhões para encerrar uma ação coletiva por publicidade enganosa sobre os recursos de inteligência artificial do iPhone. Contudo, a empresa chegou com a única coisa que seus rivais não possuem: o dispositivo. Ao licenciar o Gemini do Google como motor de IA por trás da nova Siri, a Apple repete a fórmula que a definiu historicamente, ou seja, a de não ser a primeira a inventar a tecnologia, mas ser a primeira a integrá-la de forma que torne os pioneiros irrelevantes para o consumidor final.
O chefe da divisão de software da Apple, aliás, cutucou os concorrentes ao afirmar que eles parecem estar “fazendo IA pela IA em si”, enquanto o Apple Intelligence se diferencia por utilizar dados e contexto pessoal. A provocação é calculada, mas carrega uma verdade inconveniente para OpenAI, Google e Anthropic: a inteligência artificial mais poderosa do mundo é, para o usuário comum, apenas tão útil quanto a profundidade de acesso que ela tem à sua vida real. E nesse terreno, quem controla o hardware controla a relação. A questão, como apontamos quando a Apple anunciou o acordo com o Google em março, é se essa estratégia de intermediação será suficiente quando a IA deixar de ser funcionalidade e se tornar o próprio sistema operacional da vida digital. Se a história se repetir, a Apple fará com ChatGPT e Gemini o que fez com a Nokia: deixará que outros construam a tecnologia enquanto captura o valor na camada que importa, que é a interface com o ser humano.
Pfizer Reentra na Corrida dos Medicamentos para Obesidade
Depois de um perder espaço significativo no mercado mais lucrativo da indústria farmacêutica das últimas décadas, a Pfizer apresentou novos dados clínicos de sua candidata mais promissora para perda de peso, a berobenatida, sinalizando que não pretende assistir de camarote à disputa entre Novo Nordisk e Eli Lilly. Os resultados do estudo de Fase 2b mostram que pacientes que receberam a dose semanal mais alta perderam, em média, 15,9% do peso corporal após oito meses, sem sinais de estabilização na queda de peso. Em outro estudo, envolvendo a formulação mensal, a perda chegou a quase 15% após quatorze meses. Se confirmados em fases mais avançadas, esses números posicionam a berobenatida como o primeiro medicamento da categoria GLP-1 com aplicação apenas uma vez por mês, um diferencial de conveniência que, como já acompanhamos ao analisar a aprovação da Foundayo da Lilly, pode ser tão decisivo quanto a própria eficácia clínica.
A aposta da Pfizer se sustenta em dois pilares complementares. O primeiro é a aquisição da Metsera por US$ 10 bilhões no ano passado, que trouxe não apenas a molécula, mas um time de especialistas em descoberta e desenvolvimento de medicamentos para obesidade. O segundo é um diferencial de produção: a berobenatida utiliza uma quantidade menor de ingrediente ativo em comparação com concorrentes, o que pode facilitar a fabricação em larga escala e, crucialmente, reduzir custos em um mercado onde a capacidade de produzir bilhões de doses determinará quem captura participação de mercado. A Pfizer precisa desesperadamente de um novo motor de crescimento para compensar a queda das receitas geradas por vacinas e tratamentos contra a Covid-19, e o segmento de obesidade, que já estimamos poder ultrapassar US$ 190 bilhões até 2035, é a oportunidade mais clara no horizonte.
O cenário competitivo, contudo, está cada vez mais congestionado. A Amgen avança com uma injeção potencialmente mensal ou até menos frequente. A Novo Nordisk e a Eli Lilly, já armadas com parcerias de IA, com OpenAI e Nvidia, respectivamente, aceleram seus pipelines com velocidades que farmacêuticas tradicionais não conseguem acompanhar sem transformação tecnológica equivalente. Médicos já afirmam que a próxima geração de medicamentos precisará ser significativamente melhor em efeitos colaterais, conveniência ou tratamento de condições associadas como diabetes, apneia e osteoartrite. Nesse jogo, o vencedor não será necessariamente quem tiver a molécula mais eficaz, mas quem conseguir fabricar em escala, convencer seguradoras a cobrir o tratamento e construir um ecossistema completo de soluções metabólicas. A Pfizer conhece bem essa lógica, pois foi exatamente assim que dominou o mercado de vacinas. A pergunta é se conseguirá executá-la novamente antes que a janela se feche.
ChatGPT Se Transforma Ao Abrir Capital
A OpenAI, criadora do ChatGPT, protocolou confidencialmente um pedido de oferta pública inicial de ações, conforme anunciado pela empresa em uma postagem em seu blog nesta segunda-feira. O movimento ocorre pouco mais de uma semana depois de sua principal concorrente, a Anthropic, também ter protocolado seu próprio pedido de IPO, intensificando uma corrida que já não se limita aos laboratórios e agora se estende ao mercado de capitais. Independentemente das questões regulatórias, o pedido é o mais recente sinal de que 2026 será um ano excepcional para o mercado de ações.
Em conjunto, a OpenAI prepara uma reformulação ampla do ChatGPT com o objetivo de transformar o chatbot mais popular do mundo em um "superapp" que integre ferramentas de programação, geração de imagens e aplicativos de parceiros como Canva e Booking.com. A estratégia, revelada pelo Financial Times, parte de uma convicção que já vínhamos mapeando por aqui: o futuro da inteligência artificial não pertence a modelos que respondem perguntas, mas a agentes autônomos capazes de executar tarefas complexas e de múltiplas etapas, como reservar viagens, gerenciar agendas, escrever e publicar códigos.
O Codex, produto de escrita de código da OpenAI, viu sua base de usuários ativos crescer seis vezes desde o lançamento, ultrapassando 5 milhões de usuários semanais, e será integrado ao ChatGPT como peça central da nova experiência.
O timing não é casual. Com mais de 900 milhões de usuários ativos semanais e 50 milhões de assinantes, o ChatGPT precisa demonstrar aos investidores que é mais do que um chatbot conversacional, ele precisa provar que é uma plataforma. A lógica é a mesma que transformou o WeChat chinês no superapp que centralizou mensagens, pagamentos, compras e serviços governamentais: quando o usuário resolve tudo em um único lugar, o custo de abandonar a plataforma se torna proibitivo. Ao concentrar codificação, navegação, agentes autônomos e aplicativos de terceiros no mesmo ambiente, a OpenAI tenta construir exatamente esse tipo de aprisionamento, agora mediado por inteligência artificial. A empresa, que como já acompanhamos levantou US$ 122 bilhões em sua última rodada com uma avaliação de US$ 852 bilhões, precisa justificar essa precificação com um modelo de negócio que vá além de assinaturas mensais.
Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibilizam as transformações.
Em paralelo, o CEO da SoftBank, um dos maiores acionistas da OpenAI, afirmou que a IA está se aproximando de um estágio de “superinteligência”, com modelos já participando do desenvolvimento de suas próprias versões futuras. Nesse sentido, a própria OpenAI confirmou que o GPT-5.3-Codex foi “fundamental para a sua própria criação”. A declaração pode soar hiperbólica, mas carrega uma implicação concreta: se o ciclo de melhoria dos modelos se torna parcialmente autoalimentado, a vantagem competitiva passa a crescer exponencialmente para quem lidera, tornando cada vez mais difícil para concorrentes reduzirem a distância em escala de distribuição. A reformulação do ChatGPT, portanto, não é apenas um redesign de produto, mas é uma aposta de que o vencedor da corrida da IA será definido não por quem tem o melhor modelo, mas por quem construir o ecossistema mais difícil de abandonar. E nesse tabuleiro, a Apple, com sua Siri recém-reformulada, e a OpenAI, com seu superapp, disputam a mesma coisa por caminhos opostos: o controle da interface onde a inteligência artificial encontra a vida cotidiana.
O Olheiro que Nunca Dorme: IA no Futebol
Uma plataforma de inteligência artificial desenvolvida no México e já presente em 43 países está transformando a maneira como jovens jogadores de futebol são descobertos. O sistema funciona como um olheiro digital: câmeras captam imagens durante partidas, e a IA processa os dados para gerar relatórios detalhados sobre o desempenho de cada atleta, ou seja, o mapeamento do pé dominante, da eficiência nos dribles, da taxa de finalização dentro da área, do comportamento posicional e da evolução individual de cada atleta ao longo do tempo. A tecnologia tem revelado jogadores para clubes europeus, sobretudo no continente africano, onde a presença de observadores tradicionais sempre foi escassa. “Há três anos temos revelado jovens para as ligas europeias quase todo mês”, declarou o desenvolvedor, cuja inspiração para o projeto veio de sua própria trajetória como jogador que sonhava ser descoberto por um olheiro que nunca apareceu.
A aplicação pode parecer, à primeira vista, um nicho específico, mas suas implicações estruturais são consideráveis. O futebol profissional movimenta mais de US$ 30 bilhões anuais em transferências de jogadores, e o processo de descoberta de talentos permanecia, até recentemente, artesanal, pois dependia de olheiros humanos viajando por campos de terra batida, redes de contatos informais e avaliações subjetivas que deixavam milhões de jovens invisíveis ao mercado. A inteligência artificial, nesse cenário, elimina essa assimetria geográfica ao transformar qualquer campo com uma câmera em um palco visível para o mundo inteiro. É a democratização do acesso, sim, mas é também a criação de um novo mercado de dados esportivos cujo valor será disputado por clubes, agentes, plataformas de apostas e empresas de mídia.
O avanço da IA no esporte, aliás, não se limita à base. A tecnologia deve ter papel central na Copa do Mundo de 2026, disputada no México, nos Estados Unidos e no Canadá, com análises de Big Data cada vez mais sofisticadas operando em tempo real durante as partidas. O que vemos aqui é a mesma lógica que já mapeamos em outras edições ao tratar de gêmeos digitais criados pela Mantis para atletas da NBA e do modelo de esporte como plataforma digital da Kings League de Gerard Piqué: a inteligência artificial está redesenhando o esporte de ponta a ponta, desde a identificação do talento na periferia de Lagos até a decisão tática no intervalo de uma final. E o dado mais revelador, talvez, é que essa revolução não está sendo liderada pelos grandes clubes ou pelas federações tradicionais, mas por startups e desenvolvedores que entenderam que, quando o valor migra dos olhos para os algoritmos, quem chega primeiro com a infraestrutura certa captura um mercado que ainda nem sabe que existe.






