A Nova Trilionária, Apple Paga por Mentir, Computação Quântica Simula a Vida e a IA que Aprendeu a Sonhar
Bom dia! Hoje é 7 de maio. Neste mesmo dia, em 1952, Geoffrey Dummer, engenheiro britânico do Radar Research Establishment, apresentava pela primeira vez o conceito de circuito integrado (chip) numa conferência em Washington: a ideia, então puramente teórica, de reunir múltiplos componentes eletrônicos em um único bloco sólido de material semicondutor.
Sete décadas depois, esse bloco sólido se tornou o artefato mais disputado da civilização contemporânea: quem controla a fabricação de chips controla a infraestrutura do pensamento artificial. E, como as notícias de hoje demonstram, essa corrida está redesenhando fortunas corporativas, expondo fragilidades estratégicas e inaugurando fronteiras científicas que a maioria de nós ainda não consegue dimensionar.
A Nova Trilionária e o Curioso Caso da “Fraude” Admitida da Apple
A Samsung atingiu US$ 1 trilhão em valor de mercado nesta quarta-feira, tornando-se a segunda empresa asiática a cruzar esse limiar simbólico, depois da TSMC. O salto de mais de 10% nas ações em um único pregão não foi provocado por um produto revolucionário ou por uma visão estratégica surpreendente, mas por algo mais elementar e mais poderoso: a Samsung fabrica os chips de memória de alto desempenho que a revolução da inteligência artificial exige em quantidades que a indústria simplesmente não consegue suprir. A demanda por esse tipo de chip, o HBM (High Bandwidth Memory), nos data centers de IA transformou os dispositivos de memória em ouro digital, com margens de lucro que fazem as divisões de celulares e televisores da própria Samsung parecerem negócios de baixa rentabilidade.
Contudo, o catalisador mais revelador do dia não veio da IA em si, mas de uma notícia sobre a Apple. Segundo informações publicadas pela imprensa americana, Cupertino estaria em negociações com a Samsung e a Intel para fabricar chips em solo americano, em um movimento que, se confirmado, representaria a primeira ruptura significativa na dependência quase absoluta da Apple em relação à TSMC taiwanesa. Para a Samsung, o acordo potencial significa algo ainda mais profundo, ou seja, a legitimação de sua divisão de fundição como alternativa viável para o cliente mais exigente e mais lucrativo da indústria de semicondutores. Para os Estados Unidos, é mais uma peça na estratégia de reindustrialização doméstica de chips, movida menos por eficiência econômica e mais por imperativo de segurança nacional.
Porém, do outro lado do mesmo ecossistema, a Apple protagonizou nesta semana um episódio que merece nossa atenção na análise. A empresa concordou em pagar US$ 250 milhões para encerrar uma ação coletiva que a acusava de publicidade enganosa sobre os recursos de inteligência artificial do iPhone, o que inclui promessas feitas sobre uma Siri transformada em “assistente pessoal de IA completo” que, na prática, nunca se materializaram da forma anunciada. A ação, movida por compradores de iPhone, argumentava que o marketing da Apple Intelligence foi deliberadamente inflado para tentar manter a empresa competitiva diante do avanço de OpenAI, Anthropic e Google, num momento em que a crítica sobre a falta de inovação sob Tim Cook já se tornava consenso de mercado.
A justaposição dos dois eventos, com a Samsung atingindo US$ 1 trilhão por fabricar a infraestrutura física da IA, e a Apple pagando centenas de milhões por ter prometido uma IA que não entregou, desenha um contraste que transcende as duas empresas. Ele expõe uma verdade basilar desta fase da corrida tecnológica: o valor está migrando de quem promete inteligência artificial para quem constrói as condições materiais para que ela exista. Chips de memória, fundições, energia, refrigeração… a camada física é onde os lucros mais consistentes estão se acumulando, enquanto a camada de aplicação, onde se vendem promessas ao consumidor final, permanece um campo de expectativas frequentemente não cumpridas.
Para investidores, portanto, o recado é direto: na era da IA, os fabricantes do substrato estão se provando mais resilientes do que os narradores do futuro.
O Salto Silencioso da Computação Quântica
Pesquisadores da Cleveland Clinic, da RIKEN e da IBM conseguiram simular conjuntos proteicos (como exemplo, ribossomos) com até 12.635 átomos utilizando uma combinação de computadores quânticos e supercomputadores clássicos. O número do fato, por si só, pode parecer abstrato e muito complicado para nós leigos, mas suas implicações são concretas e potencialmente transformadoras, afinal, entender como uma molécula candidata a medicamento se liga a uma proteína é um dos gargalos mais caros e lentos da indústria farmacêutica global, um processo que pode consumir mais de uma década e bilhões de dólares, com taxas de fracasso superiores a 90%. Portanto, se simulações mais precisas forem possíveis desde as etapas iniciais, o funil se inverte: menos testes são condenados ao fracasso, menos tempo desperdiçado, menos capital incinerado.
O avanço não veio da computação quântica operando sozinha, e esse detalhe é mais importante do que parece. A estratégia adotada, chamada de quantum-centric supercomputing, divide o problema entre dois tipos de máquina: o supercomputador clássico decompõe a molécula em partes gerenciáveis, enquanto os processadores quânticos lidam com o comportamento eletrônico das regiões onde a física clássica encontra seus limites. Assim, um novo algoritmo híbrido reduziu drasticamente o custo computacional e aumentou a precisão em etapas críticas em até 210 vezes. A analogia mais útil para entendermos é a de um mapeamento urbano: o computador clássico desenha os bairros; o quântico entra nas ruas mais complexas, onde as regras mudam a cada esquina.
É preciso, no entanto, calibrar o entusiasmo. O estudo ainda é um pré-print, sem revisão por pares, e os sistemas simulados, embora impressionantes em escala, representam simplificações do ambiente biológico real, que inclui água, temperatura e inúmeras interações simultâneas. Computadores quânticos continuam instáveis e sujeitos a erros, e a própria necessidade de combiná-los com máquinas clássicas evidencia que não são, ainda, ferramentas independentes. O que mudou, contudo, não é a maturidade completa da tecnologia, mas sua utilidade prática em nichos de altíssimo valor. E isso, para a indústria farmacêutica (e para qualquer setor cuja inovação dependa de simular a complexidade da natureza em escala atômica) já é suficiente para justificar nosso destaque. A pergunta que Richard Feynman fez em 1982, ao sugerir que seriam necessários sistemas quânticos para simular a própria natureza, começa, enfim, a encontrar respostas operacionais. Não definitivas, mas operacionais, e, neste campo, a diferença entre teórico e utilizável vale trilhões.
A IA Aprendeu a Sonhar
A Anthropic apresentou nesta semana um recurso experimental para o Claude que, sob o nome poético de dreaming, esconde uma ambição técnica profunda: permitir que agentes de inteligência artificial revisem suas próprias experiências após o encerramento de uma sessão de trabalho, identifiquem padrões de comportamento, consolidem aprendizados e melhorem seu desempenho sem intervenção humana direta. Na prática, trata-se de uma tentativa de romper a natureza episódica que limita os modelos de IA atuais, que em sua maioria são sistemas que recebem uma tarefa, executam uma sequência de ações e esquecem tudo ao final. Com o dreaming, o agente passa a operar como algo mais próximo de uma memória contínua, refinando preferências do usuário e acumulando contexto ao longo do tempo.
A implicação mais imediata é corporativa. Hoje, empresas que utilizam modelos de IA precisam reconstruir instruções, preferências e contexto a cada nova interação, ou seja, um desperdício de tempo e eficiência que limita a adoção em escala. Um agente que “sonha”, isto é, que processa retroativamente suas próprias interações para extrair padrões, transforma-se em algo mais parecido com um funcionário digital permanente do que com uma ferramenta descartável. Deste modo, especificamente para o setor financeiro, um dos focos declarados da Anthropic, isso pode significar agentes capazes de acompanhar operações recorrentes, aprender padrões regulatórios, adaptar relatórios ao perfil de cada executivo e melhorar continuamente análises internas, reduzindo a fricção que hoje torna a adoção de IA em ambientes altamente regulados mais promessa do que realidade.
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A dimensão estratégica do anúncio, porém, vai além do recurso em si. Na mesma semana, a Anthropic revelou dez agentes de IA voltados especificamente para aplicações financeiras e anunciou que a SpaceX fechou um acordo para dar à empresa acesso ao Colossus 1, um dos maiores supercomputadores de IA do mundo, com o objetivo de ampliar a capacidade de atendimento aos assinantes do Claude Pro e Claude Max. Mais notável ainda, a SpaceX mencionou que a Anthropic demonstrou interesse em colaborar no desenvolvimento de capacidade computacional orbital em escala de múltiplos gigawatts para inteligência artificial.
Esta convergência entre memória contínua, agentes especializados, poder computacional massivo e infraestrutura espacial desenha uma trajetória que merece atenção, pois a IA está deixando de ser um software que responde perguntas para se tornar um sistema que aprende, lembra e evolui, e, cuja infraestrutura pode, em breve, orbitar o planeta. A pergunta que o dreaming coloca não é técnica, mas filosófica: a partir de que ponto um sistema que reflete sobre suas próprias experiências e melhora sozinho deixa de ser uma ferramenta e passa a ser algo que ainda não temos nome para definir?
A Indústria Alimentar na Era das Canetas Emagrecedoras
A expansão acelerada dos medicamentos GLP-1, as chamadas “canetas emagrecedoras”, como o Ozempic e seus derivados, está provocando uma reconfiguração total na indústria global de alimentos que poucos anteciparam com a devida profundidade. Segundo a Bloomberg, empresas como Nestlé, Conagra Brands, General Mills e Kraft Heinz aceleraram lançamentos e reformularam linhas inteiras de produtos para atender consumidores que, após o uso dos medicamentos, reduziram o apetite, diminuíram a ingestão calórica em média 21% e passaram a gastar 31% menos em supermercados. O mercado de refeições congeladas, por exemplo, avaliado em cerca de US$ 78 bilhões e antes associado à conveniência sem pretensão, tornou-se o epicentro dessa transformação, com a Nestlé lançando a linha Vital Pursuit com selo “GLP-1 friendly”, enquanto a Conagra ampliou a Healthy Choice com o selo “On Track”, voltado a dietas compatíveis com os medicamentos.
O que está em jogo, contudo, transcende rótulos e embalagens. Um relatório do J.P. Morgan estima que os GLP-1 podem provocar uma perda anual de US$ 30 bilhões a US$ 55 bilhões em receitas para a indústria de alimentos e bebidas entre 2030 e 2034. Em paralelo, o mercado global desses medicamentos deve alcançar US$ 190 bilhões até 2035, segundo a Morgan Stanley, um número maior que o dobro do registrado em 2025. Nos Estados Unidos, cerca de 12% dos adultos já utilizam algum medicamento da categoria. Estamos, portanto, diante de um fenômeno que não se limita a uma moda farmacêutica, mas reconfigura o contrato fundamental entre o consumidor e o que ele ingere: menos prazer imediato, mais funcionalidade; menos volume, mais densidade nutricional; menos impulso, mais intenção.
Para a indústria alimentar, a adaptação é simultaneamente oportunidade e ameaça. A Nestlé reportou que parcela relevante dos compradores da Vital Pursuit não consumia refeições congeladas antes dos lançamentos, ou seja, o GLP-1 está criando um consumidor novo, não apenas redistribuindo o existente. Mas o desafio permanece, pois os consumidores estão cada vez mais informados e seguem atentos ao nível de processamento, sódio e composição real das refeições industrializadas. A tecnologia farmacêutica, ao alterar o apetite de milhões de pessoas, está forçando a indústria de alimentos a se reinventar sob uma lógica que ela historicamente evitou: a de que o produto precisa ser genuinamente bom para o corpo, não apenas conveniente para o paladar. Empresas que compreenderem essa mudança como estrutural, e não como nicho passageiro, terão vantagem competitiva duradoura. As que a tratarem como mais um rótulo de marketing enfrentarão a mesma erosão que já atinge, silenciosamente, os corredores de sorvetes, chocolates e bebidas açucaradas ao redor do mundo.









